Oficinas e palestras

40 [entre botas e bolas de vidro]

Já começo. E a pensar que quero mesmo o irremediável. O trânsito parado. E já pressinto a polícia verificando os carros logo à frente. Como se buscassem um condutor que não socorreu o atropelado. Mas quero testar os limites e já dirijo pensando. Porque tudo se dissipa, Emanuel. E eu sabendo que sim. No fato. Tantas coisas de que tive medo já passaram. Das que me condenei, cumpri minha pena na cabeça. Depois, só lembranças. O gato, por exemplo. Fojo me ensinando as bolas de vidro: picar bem miúdo, bem miudinho, o vidro de lâmpada fluorescente ou bolas de árvore de natal. Fazer um pó de vidro. Misturar em guisado de segunda, bem grosso. Fazer bolinhas. Atirar algumas no telhado. Deixar outras pelo muro. O gato come, Emanuel, e quando vem a digestão, ele estoura todo por dentro. Depois caga todo o sangue do corpo. O gato: eu e meu pai vimos o bicho cambaleante. Era um gato que tinha feito um estrago dentro do viveiro cilíndrico. Pois o mesmo comeu a bola de vidro. Já condenado. Escolhendo para morrer no madeirame cruzado do forro. O Seu Fojo: Sobe, Emanuel. E eu subi. E lá em cima eu açulado por gritos. Tendo de achar o gato, ainda vivo ou já morto. Que tinha deixado um cheiro forte de fezes. Já expelindo os efeitos do estrago. As entranhas dissolvidas. Eu seguindo. E foi num canto. Escondido entre madeiras e sacos de linhagem. Vi os olhos úmidos que adivinhavam a morte e não fugiam. O corpo tigrado mostrando os movimentos da respiração difícil. Lá de baixo, a malevolência da voz do Seu Fojo me agitando e aos pássaros. Que não deixasse escapar, senão me matava. E olhei para o gato. Sentindo que ele já não ouvia mais nada. O qual levantava a cabeça sem sustentação. Lambendo as patas. Um horror que não esqueço: o gato abrindo bastante a boca e tremendo todo o corpo para soltar um miado mudo. Sendo um pedido de misericórdia. Que ninguém escutaria, e eu escutando sempre. E depois o gato deixando pender a cabeça entregue. Lá em baixo o Seu Fojo querendo saber. Gritando como numa corrida de cavalos. O gato tremia as patas traseiras. Um espasmo. E eu tendo de fazer. O rabo girando com agonias de cobra. De forma que tive de empurrar o gato lá de cima. Com os pés. ?Logo que o gato caiu, o Seu Fojo indo olhar o mesmo. O qual ainda tremia partes do corpo. Sendo ao descer: o Seu Fojo me deu um abraço tíbio. Mas um abraço. De tudo o que guardo, o mais terrível. Na estupidez, o Seu Fojo reconhecendo a minha paternidade. E depois, o difícil de esquecer. As coisas de remorso. E depois depois, como uma ferida que ganhando casca desaparece, esquecer e lembrar. Mas cada vez ficando menos pessoal. E tudo se misturando mais, ganhando contorno apenas de história. Os acontecimentos iam, ficando um fato: meu pai era mesmo capaz de me fazer parecido com ele. Calçava botas fáceis de esmagar crânio de gato condenado pelo vidro. De gato miau faço mingau, e pisou com toda a força.

Observo a lentidão dos carros e não tenho medo. Mesmo que o meu carro esteja batido. Marcas que, bem observadas, são do corpo de um homem. Parece o fim e vou chegar cansado. Ter que responder a perguntas. Sentar em cadeiras duras. Observar a inteligência burocrática a respeitar direitos que ganhei desde antes da democracia. Já não sendo mais medo. Apenas um aborrecimento e uma vontade de largar o volante e abandonar o carro. Sentar na calçada, fechar os olhos e deixar que o sol decida tudo. Como a chuva fez comigo e o padeiro. Parecem os efeitos do vidro invisível. Estou para gritar e vou abrir a boca e não sairá nada. Então eu caindo do forro. Depois a bota não imprimirá sua dor. Servirá apenas para afiançar um mando.?Pela frente, um rosto oval observa o carro e depois invade a janela. Os olhos tendo dificuldade, porque os reflexos. Pede documentos, e eu abro o porta-luvas. E em seguida a carteira. Entrego tudo. O policial faz uma volta. Observando os estragos no carro, e o mesmo pergunta o que houve. Digo que bati, e é irremediável. Bateu como? Digo que foi num cara.

Foi uma bota esmagando. Quando entreguei o gato morto e recebi um abraço de pai. Eu também já estando com uma bola de vidro por dentro. Depois tudo virou história. Este carro.

O policial fica em silêncio, depois baixando a cabeça. Com educação exemplar ele pergunta se eu poderia encostar o carro ao lado e abrir o porta-malas. O que faço. Vou atirar o gato para baixo. Conforme meu pai me ensinou: sendo preciso calçar botas de sola dura e não olhar nos olhos. Sendo os olhos sempre o problema. Porque os bichos falam com os olhos, viu? E por acaso é o policial usando óculos escuros. Os passarinhos agitados com o calor. Ele perguntando se eu vendia passarinho? Não: eram do meu pai. Ele morreu. Está pra morrer, na verdade. Estou levando pra casa. Pra ver se arranjo alguém que cuide deles. O policial examinando as gaiolas. Todos canários?, ele pergunta. Todos canários, eu respondo. E é então que ele pede pra lhe mostrar uma gaiola. Eu puxo uma e acomodo no chão. Havendo oito canários dentro. Que se agitam. Se eu tinha conhecimento de que aquilo não podia? Como? E ele explicando que eu não podia transportar passarinho daquele jeito. Que jeito? Assim, sem humanidade. Muito bicho pra pouca gaiola. Sem humanidade, Emanuel. O policial não usa botas. Ele examina melhor. Batendo com os dedos nas grades. Os pássaros nervosos. Em seguida, busca com os olhos alguém distante e pede que eu espere. Caminha até um homem. O qual, pelo quepe e os óculos escuros, é superior. Também porque o mesmo usa botas. Eles vêm conversando. O cabeça oval gesticulando. No caminho, um terceiro se junta à marcha. E chegam. São todos canários, tenente, o cabeça de ovo informando. O tenente fica de cócoras. Observando. Vez em quando batendo também com os dedos na grade. Depois se levanta. Vai olhar o porta-malas. Retirando mais duas gaiolas com a ajuda do terceiro. Ele grita a outros para que venham ver. Comentários: Olha que amarelo. Cor de gema! Canário grande assim nunca tinha visto! O tenente indo até mim com o primeiro policial. Ao redor dos pássaros, outros dois pegam a rir. O senhor faz o quê?, o tenente. Sou professor. Professor de quê? Matemática. Onde? No Irineu Evangelista. Colégio de ricos. É, digo. Eles me olham. O tenente de novo: O senhor fazia o quê com os pássaros? Eram do meu pai. O outro policial chamando a atenção para as marcas do carro. O tenente observa e me olha. E o carro? Bati. Como? Assim: bati num cara atravessando a rua.

Tenho botas fortes pra esmagar por cima.

O tenente voltando a olhar o carro. Abaixando para examinar marcas no pára-choque. Depois tira os óculos, observa os documentos e me entrega. Que eu podia seguir. As gaiolas ficando para averiguação. Palavra bonita, digo. O tenente se aproxima: O senhor pode seguir, e é melhor arrumar o carro. Não me interessa onde o senhor bateu, eu conheço marca de atropelamento, e esse carro não atropelou ninguém. Mas não pode transportar animal silvestre assim. Não entendi. O tenente se aproxima mais, me olhando nos olhos e falando firme: Olha, também trabalho, recebo e pago as minhas contas. A operação é uma malha séria para ver documentos. O senhor vende pássaros. Digo que não vendo. Mas as gaiolas ficam, ele me diz. O senhor pode seguir, porque os documentos estão em dia. ?E pois, sigo.?(De A parede no escuro)