Oficinas e palestras

ADVERTÊNCIA

PREOCUPADA, muda e os olhos caídos num cinza que ninguém repara (igual ao fumê das meias que comprou, daquelas que nem garfo nem unha de gato rasgam), você senta na varanda, e o sol que baixa, vermelho sangue ou fogo, põe-lhe fogo no sangue e vermelho no rosto. Engole a saliva com gosto de pilha – você sempre achou que o sangue tem gosto de pilha. E agora, dá pra dizer de novo, que gosto tem a vida mesmo?

Você casou em maio, o vestido branco que sonhou, igual ao das bonecas preferidas; flor natural nos cabelos – sempre gostou das coisas naturais, terrível aquela samambaia de plástico na casa! -, o irmão tocando órgão na igreja, bonito como um anjo. O coitado morreu num ônibus que ia para Blumenau beber cerveja. O marido com que o pai e a mãe se encantaram: “ganha uma banana na metalúrgica e é filho do Dutra, da padaria.” No princípio, você meio nova ainda, as gurias da turma do terceiro ano transando já, achou ele meio sem graça. Você é loira e ele tinha que ser moreno. Mas aos poucos você gostou dele e ele jogava bem de goleiro. Faltava era usar uma gravata, porque marido para você tinha de se preocupar com usar gravata. E aquele homem que caía na sua vida, tremia como qualquer homem de rosto fino, cheiro de loção pós-barba. Seu pai e sua mãe, churrasco no domingo, “começa a guardar dinheiro pro enxoval!”– e você, muda, catava os últimos branquinhos do arroz no prato. Você tinha já vontade de gritar, mas não sabia que se gritava qualquer coisa: “não vou casar, não gosto de loiro, a barba dele tá sempre mal feita, cadê a gravata?, esse arroz tá unidos venceremos, mãe!”. Já naquele tempo a coisa de dentro de você se mexia em revolta, como um enxame de marimbondos. Preocupada, casou, e depois?

Viu só? o sol morreu e nas pernas já tem mosquito. (Dá para parar de falar que tem de depilar as pernas?) Veja lá com o que vai se preocupar! Se você sabe bem a dor de ser picada na mesma picada, fique calada, porque, no fundo, nessa casa ninguém se preocupa com ninguém. Engula a saliva áspera ou azeda. O marido lá dentro, fumando e olhando jornal-nacional. Daqui a pouco aquele acesso de nervosismo nele: troca de canal, troca de novo. E, muda, você reclama que ele é estúpido e vagabundo. Perdeu o emprego na firma por se meter a macho nessas coisas de sindicato. Você preocupada o dia inteiro, o guri vai para o segundo grau sem caderno. A filha, com dezessete, de sainha curta. Os seios durinhos iguais como eram os seus. Você tem vontade de gritar: “dois filhos e cai tudo!” Ele, cigarro mais cigarro, não procura nada, e você começa a achar que ele não quer trabalhar. Ou será que não gosta?

E a sua tireoide que não baixou! Você se preocupa cada dia mais, arrasta os chinelos e tem dor nas costas. E daí? Ninguém se importa se você gastar as solas da vida. Só se importam quando a comida tem muito sal. Se faz salada – alface que cuidou bem, na caixa de madeira primeiro, depois transplantou ao jardim -, ninguém come. Você também não, porque só o que consegue é engolir a saliva salgada. Será que é verde como a alface? O filho chega e diz que ficou em recuperação, “o professor de Matemática é foda, me ralou!”. Pegando boletim, você tem vontade de gritar que o de Química e o de Física também são fodas. Que o filho também é foda. O marido, a casa, a vida. Procurando seu pente de madeira, descobre anticoncepcional na bolsa da filha – nem namorado tem. “Pra pôr no xampu, mãe, pra crescer melhor o cabelo”. Nasce em você uma coisa que tem espinho e vontade de gritar. Para procurar emprego o marido precisa se arrumar tanto? Mas ninguém lhe dá satisfação, ninguém lhe respeita.

Preocupando-se em mudar de vida, você abre as janelas, mastiga o sol que mostra que o mundo está aí. Então apresenta ao marido o mundo, escancara o calor que penetra no quarto e fere o rosto que dorme até meio-dia. Em vez de café, atira o mundo sobre a cama: a gasolina vai subir de novo, daí sobe o gás e a comida. Já pagou o seu Plínio do armazém? O leite das crianças é questão de vergonha na cara – homem que se preze tem de pelo menos dar leite pros filhos! Ninguém reclama da sopa no almoço. À tarde, quer dormir um pouco, esquecer o mundo nas costas do marido, que ele segure o fardo dos dias só um pouquinho. Mas, ao dormir, cresce uma coisa dentro de você, que voa, que remexe, que ferroa: gospe marimbondos vermelhos que se entocam embaixo da cama. Aquele dia, tardinha, lembra? não eram mosquitos sugando-lhe o sangue não, eram os marimbondos já, querendo entrar e ferroar pelos sete dias da semana. Seriam essas as agulhas que todas as noites lhe acordam, suor no corpo todo, em estado de choque?

A cobrança do telefone acumulou seis meses. Está no seu nome, e a companhia ameaça cortar a linha. Muda, você apresenta os demonstrativos ao marido (tirando minhocas para pescaria debaixo dos tijolos do jardim). Ele diz “o que é que se vai fazer?” Preocupa tudo o que você construiu escorrendo entre os dedos. Mas você não fala, nem com os olhos. Podia gritar, com os olhos ao menos, mas livrar-se podia desse grito de anos, sufocado. E a saliva, engole, com a impressão de ser amarela que nem aquela gosma de dentro das minhocas. De noite, (pescaria sem peixe?) ele se vira a um canto, aquele do pôster do futebol, e finge que não se importa com você. Com vontade de esquecer tudo, cutuca as costas dele. Ele tem dor de cabeça, vai tomar copo d’água com açúcar. Onde tanto açúcar para a dor azeda que você alimenta no corpo inteiro, ferroada de marimbondos toda a noite?

Vai, de repente, descobre ele com a merendeira do colégio. Você sempre a encontrava lá, de lenço no cabelo a fumar cigarro no intervalo. Aquela magrela nojenta: loira de pentelho preto. A ponta de seus dedos do pé e da mão ficam geladas e você, preocupada, põe a mão na boca para segurar grito rebelde que, sabe bem, empurra, bate forte à porta de você, dizendo que quer gritar. Ou será só uma lágrima? E então parece que a lágrima desce até a garganta, e você percebe que não era lágrima nenhuma – gospe um marimbondo em cada canto que, liberto, ferroa bem a sua beleza cansada. Agora são marimbondos daqueles com o dorso preto-e-amarelo, como os cabelos da magrela. Depois você engole uma saliva diferente, quem sabe que nem água oxigenada?

Vai para casa e o espelho mostra bem: “mulher, seus cabelos loiros, quase todos brancos! O rosto com uma porção de rodelinhas claras!” (São picadas ou é o só o mofo dos dias?) A sobrancelha não faz há quanto tempo? Tira a blusa suada, e examina os seios cansados como fruta de promoção. Aperta-se e a carne preocupa. Está gorda, gorda, gorda e gorda. A bunda, credo! não cabe no espelho. Bate na imagem, claro que o espelho aumenta, não engordou tanto assim! Também tinha o direito de engordar um pouquinho só, criando filhos e marido, se preocupando todo o dia com eles. Engole uma saliva doce como méis de todos os marimbondos, será que não engorda?

Então você se fecha num canto de piedade a todos os dias. Fica nervosa e toma apenas sopa para não engordar. Chora uma lágrima em cada canto. Suspira aquele grito trancado para, implodindo, não se deixar explodir – seria então caso de se chamar “grito para dentro?” Rói as unhas e as carnes dos dedos onde não encontra alcançar as unhas. Mas, ao roer, os dentes também querem gritar. Agora faça-me o favor de calar a boca, gritasse antes! Está sozinha, ninguém se importa com você, e seu grito seria o mais idiota dos gritos: sairia para se mostrar, ser escutado e, nada feito – ninguém para com ele se importar -, é gritar o nada. Você só quer gritar para que alguém lhe ouça (ou, confesse, para você ouvir que [faltará coragem?] pode gritar com alguém). Logo, porque tudo se veria inútil, grito e vontade voltariam à toca amarga da garganta, fazendo engolir uma saliva com gosto de cebola – o desgraçado do marido chegou pedindo bife¬zinho acebolado. E você não diz nada para ele? Onde dinheiro para a carne agora?

A pressão subiu. Por isso então: aquela saliva amarelou no canto da boca, e não conseguiu mais engolir. O rádio ligado alto. A televisão mudando de canal a todo instante. A filha dourando o corpo no jardim – depois entrega, suave e perfumado, ao cheiro de gasolina insuportável do moto¬queiro cabeludo e de cavanhaque. Aquela cara de canalha dele lhe incomoda. Homem de tatuagem é maconheiro, você sempre soube. A boca feia nos lábios bonitos da filha, a mão de unhas engraxadas no sexo bem contornado como uma flor. Todos passam por você e ninguém se importa com seu coração descompassado – pensam que só homem tem infarto. É fato: todos estão muito ocupados e não se preo¬cupam com você, calada, fumando ainda. Mas você não fuma¬va, vai fumar depois de velha? Preocupa-se em libertar, conta-gotas, aquele grito, mas junta a fumaça, os dentes ganham um amarelo aguado (só falta dizer que parecem os cabelos da magrela). Agora os marimbondos, poucos, ferroam-se uns aos outros e morrem no estômago mesmo. Tem alguma coisa a ver com essa dor no seio?

O médico pede repouso e a família não se importa: a camisa passa lisinha para a filha (ferro estragado esquentando no bico do fogão). Esperando, preocupa saber que o motoqueiro vai amassar o que chama de último afeto. Arroz de carreteiro pro cretino do marido depois conversar macio com a magra e pegar nos cabelos artificiais, dizendo que são bonitos. Sente falta daquela saliva, daqueles marimbondos que eram como aquela dorzinha no canto das unhas, cutucada todos os dias com prazer. Um caroço aponta no seio. Vai para o hospital, o médico vai lhe tirar uma mama. “Não tem mal nenhum, tem próteses que parecem de verdade”. Parecem, mas não são naturais esses seios de bor¬racha-silicone. Preocupada com a magrela de novo: o cabelo é horroroso, mas tem dois seios de verdade. Até que a samambaia de plástico, de longe, é bonita. Em casa, passa um dia inteiro no quarto, vivendo o álbum de fotografias da família. O óculos trincou e fica difícil ver o quanto você era bonita ao lado do homem (quando tirou a foto, ele estava de gravata). Súbito, a foto do grito: natal na escola, e você ao lado da galinha, ela servindo bolinho com toca de papai-noel. Cínica! Não bote a mão no fogo por mais ninguém. Você mastiga, engole o que mastigou, de resignação. Essa papa no pescoço, viu?, é da tireoide. E o grito, sacudindo-se de saliva, como um cachorro, arranha-lhe as portas do estômago. Você sente até o focinho no esôfago – é noite de chuva, ele quer entrar e dormir no tapete da cozinha (mas você sabe que é sair o que ele quer). Vários chás, comprimidos, efervescentes, ampolas, emplastos – as coleiras fininhas e o bicho, cada vez mais agi¬tado, caminha em círculos, impaciente, ladrando. Você chama alguém (ouve que todos estão em casa, porque a televisão não pára num canal, o rádio no volume o máximo nervoso, filha e cabeludo rindo alto na sala) – não tem ninguém em casa. Está, finalmente, sozinha. Reparou que o cachorro não parou, e agora não é mais latido, é rosnado?

(Você em absoluta mudez, dentro de você cresce aquele grito, agora é um urro, uma bola de saliva de anos engolida. A canjinha de galinha que tomou (as mãos tremendo) o cão cheira, geme e vai para baixo da casa. Começa a tempestade – até seus trovões são mudos. Mas os cães têm bom ouvido; o seu os escuta e, provocado, embaixo da casa, rosna mais alto. Ninguém se importa com você, gelada na chuva – ou será que eles têm medo de que o cachorro saia lá de baixo e morda-lhes os calcanhares?)

Nove da noite e não dá mais. O cachorro, com fome de quê?, comeu-lhe a flor-fígado e a flor-pâncreas. Agora, cavando o seu jardim, procura, cheira, onde enterrou o seio ruim? Você tenta respirar e não dá mais. Tenta chorar e não dá mais. Vai ao banheiro e não dá mais: o cachorro soltou corrente e trilho e, atravessado na garganta, já dá para ver a cabeça no espelho, as orelhas pontiagudas em pé. O espelho colhe os dentes brancos num fio de reflexo e, na boca negra, pastosa, a saliva dos anos. A saliva de filho, filha, marido. Então percebe tudo: o que doía era o cachorro que, ferroado todos os dias, botou fogo nos marimbondos (marimbondo tem medo de fogo, sabia?). Eis que o vômito vence-lhe tudo – raiva, sentidos, grito (ou será ele o grito?). No banheiro, uma bolha – talvez um pouco de silêncio, de descaso, de esquecimento. Tudo é a mesma coisa quando engolido, não? Mas então rompe-se da goma o gomo: é o cão que salta, sacudindo do pelo a saliva que resta. Você, assustada, percebe que ele é maior, muito maior que você. E ele grita – você late. Grito e latido são altos, muito altos que você jamais ouviu. Mais altos que a televisão e o rádio. Ninguém, contudo, escutou; ninguém se importou – lembra-se de que gritava para dentro? De resto, é um latido fino, um zunzunzum de marimbondo – ou serão só os grilos do começo da lua?

Agora você entra na cozinha do colégio e solta seu cão que cresce cresce do tamanho do refeitório e engole e mastiga mastiga e rasga os dois seios da outra e tritura os ossos e resta apenas uns fios de cabelo amarelados (você tinha razão, viu?, as raízes são pretas mesmo). Você grita – e ainda assim ninguém suspende as aulas.

Chega em casa e solta a coleira. Seu cão está mais preto (mais feroz, quem sabe?). Quer mais sangue para diluir a saliva. De um golpe o cão mastiga marido televisão filho rádio a filha transando com o motoqueiro na sua cama e arranha e arranha e destrói com suas enormes patas a casa e a moto e tritura e tritura e enterra tudo. Você grita grita – e é quando sente sede.

Quem é que trouxe as sirenas e os soldadinhos verdes? Você fala do cachorro, “um baita bicho brabo e babando e mordendo todo mundo”. Ninguém viu cachorro algum. Você então decide fingir que é muda, mas o sussurro geral é de que está perturbada. Você quer chamar o cão, pra eles verem só, mas eles levam você. Da janelinha do camburão, você ri – o cachorro estava lá, o tempo todo, mas tão grande o seu cachorro, não admira que não o enxergassem embaixo da noite. Então você grita grita grita – e alguém grita “cala a boca!”, mas “cala a boca!” você já conhece há muito tempo, o “cala a boca!” e todas as suas variações nervosas. É preciso que eles conheçam o grito. Você grita mais alto que todos. Mão pesada grita mais alto dentro da sua cabeça.

No carro, embalo, sente um desejo imenso de dormir e dorme – enrodilhada no soalho. Acorda, como que anos passados, com outras mulheres, outros cães, outra gritaria. Você pode gritar também, à vontade. Percebe? você não se preocupa com mais nada. Seria o alívio isso?

Passa a não se importar se alguém se preocupa com você. E brinca de deixar brincar com uma mulher do mesmo quarto. Os bonitos cabelos amarelos, quase brancos de tanto gritar a vida.

(De Como se moesse ferro)