Crítica

Se Choverem Pássaros,

Quando a literatura vira asa

O porto-alegrense Altair Martins lança hoje "Se choverem pássaros", seu terceiro livro de contos.

A grafia é bem assim: sE cHOVEREM pÁSSAROS,. Já no título, o terceiro livro de Altair Martins, com um lançamento marcado para hoje, anuncia que a literatura de dará sob o signo da estranheza.

Invertendo a ordem estabelecida, minúsculas no lugar das maiúsculas, e vice-versa, pedra de toque dada por uma vírgula final, Altair recria o cânone, ultrapassando a regra num estilo que já se tornou sua marca registrada.

Se choverem pássaros, reúne oito contos que trazem a intenção do desconcerto. Dedicando-se à experimentação em níveis diversos, Altair conduz o leitor por um universo de apelo sensorial impactante. Aromas, sabores, texturas, sons, imagens: todos os sentidos são convocados, complementando uma prosa que, fugindo das facilidades dos clichês narrativos e de linguagem, possui viço de coisa nova. Sem se deixar abater pelas invencionices novidadeiras, armadilha que derruba nove entre 10 autores, Altair investe pesado num sistema singular: o realismo é banido, o minimalismo se impõe, privilegiando o nonsense cotidiano – aquele que poucos conseguem enxergar.

Professor de literatura brasileira no curso pré-vestibular Mauá, tendo integrado O Livro dos homens, organizado por Charles Kiefer, Altair escreve com minúcia e profusão. Sua primeira obra, Como se moesse ferro, de 1999, foi recebida com alvoroço na topografia literária nacional. Aos 24 anos, Altair fez com que boa parte da crítica caísse de joelhos; em contraponto, houve aqueles que, vendo excessos numa escrita abundante, torcessem o nariz. Seu segundo livro, dentro do olho dentro – já ali a grafia era tortuosa –, composto de um único conto e de um ensaio crítico do Professor Volnyr Santos, também tinha o selo de uma escrita aos jorros. Agora, som Se choverem pássaros,, o autor acata essa espécie de barroquismo como elemento estilístico, mesmo que isso signifique me alguns momentos a perda do fio narrativo em favor de excesso de ornamentação.

Fiel a suas crenças, Altair desencava potência da inversão semântica, justapondo termos em construções inéditas – transformando em bons achados aquilo que, em mãos menos hábeis, acabaria numa tragédia de proporções. No título, uma oração subordinada condicional acabada em vírgula, há a intenção de convidar à leitura.

- Queria que o próprio livro fosse a oração principal à que se subordina a oração do título. Mexo com a curiosidade do leitor – explica Altair.

Autor experimenta diversos tipos de narradores e busca matéria-prima no insólito da vida cotidiana A instância narrativa também foi para dentro do laboratório desse moço: há narradores em modalidades diversas – quase todo o possível e conhecido, e o impossível e desconhecido, amalgamado num só volume. A linguagem ganhou roupa nova. Lá pelas tantas, dois colchetes, entre os quais reina o espaço vazio, aquele que o leitor terá de preencher, identifica uma personagem. É antipalavra, quimera literária buscada com ênfase, como, de resto, todos os insólitos que garantem o clima de estranheza.

Autor que perdeu a ingenuidade do espontaneísmo já no primeiro livro, Altair é capaz de garimpar no entorno os elementos básicos de sua prosa. Fazendo matéria-prima da vida besta, esse ganhador de oito importantes premiações literárias em apenas três anos de carreira ainda recheou seu livro com ratos, sobras, lesmas, cachorros e pássaros: um zoológico em viva alegoria da condição humana.

- Queria que ao menos os bichos tivessem humanidade.

Dois contos merecem destaque. Sol na chuva à noite, que venceu o Concurso Nacional de Contos Cidade de Araçatuba em 2000, mostra a relação de um casal com um cachorro: não se pode saber quem é bicho e quem é gente. O desenlace, doloríssimo, é lance de mestre. Em Ira das mães, peça que constou da antologia Geração 90: manuscritos de computador, organizada por Nelson de Oliveira e publicada pela Editora Boitempo no ano passado, Altair narra com delicadeza a história de uma mulher que, ao volante, vê um motorista apagando o cigarro na mãozinha de um menino-pedinte. De repente, o fantástico: todas as mulheres são mães e todos os homens são filhos. Bonito que chega a doer.

Construtor competente de imagens, encontra-se pelo menos uma, bela, a cada página. Assim, se pode ler que "chuva é colírio do que se vê". Ou então: "A liberdade não vem antes ou depois da asa. É asa." Pérola.

Com capa de Walmor Santos sobre detalhe de pastel feito especialmente por Gerson Reichert, Se choverem pássaros, tem bonita apresentação, muito embora o papel pudesse ser mais encorpado. As orelhas, imensas, trazem diálogo entre os escritores Nelson de Oliveira e Marcelino Freire. O livro já teve sessões de autógrafos em Guaíba e em Caxias do Sul. Hoje à noite, é hora de entrar na fila de Altair. Aquele que faz da literatura asa.

Cíntia Moscovich