Crítica

Dentro Do Olho Dentro

Com medo do olho de vidro

Altair Martins autografa o conto premiado "dentro do olho dentro"

Altair Martins lança hoje seu segundo livro, dentro do olho dentro, um conto denso em experimentações sobre o medo da passagem do tempo. O jovem escritor e professor de literatura foi finalista do Prêmio Jabuti 2001 com seu primeiro livro de contos, Como se moesse ferro, também premiado com o Açorianos em dezembro.

dentro do olho dentro, publicado agora com ensaio do professor da PUCRS Volnyr Santos na coleção Eco & Narciso da WS editor, obteve o primeiro lugar no concurso Luiz Vilela da Universidade Estadual de Minas Gerais. A sequência de distinções – duas vezes vencedor do Prêmio Guimarães Rosa, em 1994 e 1999 – e o respeito dos escritores e críticos literários como José Castello fazem desabar sobre este rapaz de 26 anos uma curiosidade e expectativa crescentes. Castello chega a citá-lo como exemplo em resenhas de autores estreantes bem mais maduros – e sublinha que Altair não está brincando em serviço.

Autor participa de coletânea com 14 contistas brasileiros Dentro do olho dentro começa com um exercício árduo: o narrador como criança. Quase ao final do texto, as impressões de um segundo menino, o neto do neto, vão compor uma das cenas mais deliciosas do conto, a do guri ensinando ao avô que medo se vence com desobediência e amor (aos peixinhos) irredutíveis. "O calar-se do menino consolava todo o rio". Altair transporta para a rua de um matadouro de Guaíba a imagem universal do temor da morte de pessoas queridas (a do avô que educa para as descobertas) e converte signos como as vitrinas, ou olhos de vidro, em espelhos da criação artística que modifica e remonta tudo, até o sexo, até o tempo. Ele parece lembrar aos leitores a certeza de que a profissão de escritor começa no olhar, sentido feminino – começa cedo no olho da criança quase sempre assustada em vez de consolada pelas frases dos adultos próximos.

O ensaio ao final oferta várias das leituras possíveis num texto que perturba e faz pensar. Volnyr Santos lembra que os contos anteriores de Altair já conduziam a radicais experiências humanas, por recortarem a deformarem a realidade de modo inusitado:

- Altair Martins se vale da vitrina e seus sortilégios para virar do avesso tudo o que está diante do menino. É na vitrina, símbolo de um espaço e de um tempo em que a tônica é a perplexidade, que se acha entrelaçada a própria vida – escreve o professor.

No ano passado, Altair foi convidado a integrar uma coletânea com 14 contistas brasileiros que estrearam nos anos 90. O livro sairá pela Boitempo.

Cris Gutkoski