Crítica

Terra Avulsa

Revolução no (ou de) apartamento

Ao ser assaltado e apontarem-lhe uma arma, Pedro Vicente fica traumatizado. Embora a dupla de ladrões não roube muita coisa – apenas um pouco de dinheiro, a jaqueta e a mochila com documentos –, já é suficiente para que ele se tranque dentro de si mesmo, com medo de tudo. Resolve, assim, começar um exílio voluntário dentro do próprio apartamento, no qual funda um país com regras e leis próprias. Esse é o início da história de Terra Avulsa, romance do gaúcho Altair Martins, lançado este ano pela editora Record.

Martins não é novidade no mundo literário: já foi agraciado com os principais prêmios nacionais, como o São Paulo de Literatura por seu primeiro romance, intitulado A Parede no Escuro. Assim como em sua estreia romanesca, pela qual foi muito elogiado e premiado, Martins deseja inovar na narrativa. Em uma obra que explora solidão, crise de identidade e questionamentos internos profundos, o leitor não poderia esperar outra coisa dele.

Ao começar o isolamento voluntário, Pedro Vicente, tradutor e professor de espanhol, tapa as janelas com jornais para não ter nenhum contato com o mundo exterior. Sua ponte com o que ainda ocorre lá fora é Eudora, que trabalha na editora para a qual ele continua a traduzir poemas de Javier Lucerna – poeta nicaraguense que lutou na Revolução Sandinista, com o objetivo de derrubar o ditador Anastasio Somoza. Em meio a esse isolamento que Eudora considera radical, mas procura entender, ela convida o protagonista para um projeto que pretende lançar em livro, que é misturar fotos com poemas. E aí inicia o ponto alto da narrativa: a combinação de imagens de objetos triviais com poemas falando sobre eles. Pedro Vicente – meio consciente, meio sem querer – emula a personalidade de Lucerna. Assim, utiliza-se de uma espécie de hipálage – “atribuição a x de coisa pertencente a y, desde que se estabeleça um vínculo de transferência entre x e y” –, da mesma maneira que Lucerna começou a fazer durante a guerra, quando Somoza transferia o foco da imprensa para a cerveja do país, o beisebol ou os tijolos de três furos, por exemplo. Como forma de resistência, Lucerna escrevia sobre o mínimo – objetos comuns eram utilizados como metáfora, protesto sutil.

Depois do assalto, Pedro Vicente encontrou um vínculo entre ele e os objetos e transferia isso para os escritos que rabiscava dentro de seu próprio país. Em meio a uma forte crise de identidade, não contava, porém, que Eudora fosse atrapalhá-lo em sua tentativa de não sentir mais nada. Ao despertá-lo sentimentos românticos, ele nota que, por mais que quisesse manter-se a parte de tudo, algo do mundo exterior sempre o perturbaria.


Narrativa original

Em Terra Avulsa, Altair Martins insere duas narrativas distintas. Na principal, Pedro Vicente conta, em primeira pessoa, seu dia a dia, onde o tempo cronológico é suspenso. Também combina os relatos de sua vida exilado com os poemas que escreve e que são ilustrados por fotografias de Eudora. De outro, aparece a história de Mickey, um dos assaltantes, que quer conquistar uma balconista de farmácia. Para isso, ele assume a identidade de Pedro Vicente, que foi roubada no assalto – e aí aparece uma das muitas metáforas das quais o autor se utiliza. Contrapõem-se, então, duas visões de mundo distintas: uma já desesperançada, e outra que, de jeitos meio tortos, ainda não desistiu de seguir atrás da felicidade.

No seu primeiro romance, A Parede no Escuro, Martins escreveu sobre a morte do padeiro Adorno pelo ponto de vista de vários personagens que o cercavam – da filha e da mulher, do atropelador, do pai do assassino e de outras pessoas que surgem na história. Assim, ao mesmo tempo em que o leitor esclarece um lado, o outro vem confundi-lo. E isso torna o livro singular, mesmo que o enredo – a morte de alguém e o modo com as pessoas à volta lidam com a perda – não seja exatamente original. (Em muitos momentos, me recordava do ótimo Sinuca Embaixo d’Água, da também gaúcha Carol Bensimon, que narra o modo como amigos e família lidam com a perda súbita de Antônia em um acidente de trânsito.)

Inovar na narrativa é o objetivo central de Altair Martins, assim como falou em várias entrevistas. Uma das mais interessantes e aprofundadas foi concedida à revista Rascunho, na qual afirmou que existe atualmente uma crise da narrativa, pois muitos autores ainda utilizam modelos que funcionavam apenas no passado – que, segundo ele, é o narrador em terceira pessoa. Martins não deseja ficar na zona de conforto. Interpreta a literatura também como exercício narrativo: “Um monte de gente não gosta do que escrevo, mas eu estou buscando, de alguma maneira, questionar essa pretensa realidade narrativa. É o que penso de literatura. Não estou dizendo que deva ser assim, não é uma escola. Aliás, que eu saiba, pouca gente pensa como eu em relação à narrativa tradicional.”.


Crítica à sociedade

Mais uma vez, Altair Martins conseguiu ser original. Captou, com maestria, um dos maiores problemas da nossa sociedade: a insegurança que nos isola. O substantivo insegurança aqui é utilizado em dois sentidos. O primeiro se dá no âmbito pessoal, enquanto o segundo se refere ao Estado, que não fornece segurança na medida em que deveria – mas, principalmente, não ataca o problema na raiz (que, vejam só, não é apenas colocar mais policiais na rua e mais bandidos na cadeia).

Já no início do livro, o autor insere a frase “Vamos rir mais”, retirada de uma propaganda do chiclete Trident. A sacada já prenuncia o tom irônico que se desenvolve ao longo das páginas. É como se o protagonista se questionasse do quê rir em um mundo que não lhe oferece motivos para isso. Como não vislumbra alternativas para ajudar o Brasil a melhorar, resolve fundar o seu próprio país, na qual é o único habitante. Cansado de forçar sorrisos e sentir-se vulnerável, buscou uma realidade paralela, errante, que gira em torno de si mesmo – diferente de Lucerna, que empunhou armas para combater a ditadura.

O assalto foi o estopim para desencadear uma série de outros traumas que estavam adormecidos e que incomodavam Pedro Vicente. Dedicou, então, o tempo livre para ler, escrever e ruminar os fantasmas do passado, como a ausência da figura materna e a convivência com o padrasto.

O brilhante na obra de Altair Martins são os diversos significados que o leitor pode atribuir ao que lê. A velocidade da narrativa, as frases, as metáforas, tudo corre de maneira compassada e rítmica no livro, sem causar cansaço, mas expondo exatamente os sentimentos do protagonista, que emula Javier Lucerna. Pedro Vicente fez sua revolução, à maneira do poeta nicaraguense que traduzia. Em menores proporções, é verdade, mas uma revolução de apartamento que, se não serviu para se conhecer melhor, o ajudou a se resignar à realidade com a qual se depara ao sair para a rua novamente.

Com Terra Avulsa, Martins conseguiu reafirmar os motivos de ser citado como um dos principais autores brasileiros da atualidade.

Cândida Schaedler