Crítica

Terra Avulsa

Entrevista para a Revista da Livraria Cultura

1. De que maneira a memória afetiva presente em objetos desperta sua criatividade literária?

Há muito que os objetos cumprem funções em meu texto literário. Considero-os microcosmos sobre os quais sabemos tão pouco, e por isso se faz indispensável pensar as nossas “coisas”. Cada objeto que nos acompanha é como que uma assinatura humana: nele imprimimos, pela via pouco perceptível, quem somos de modo mais sincero. É uma sinceridade que tem a ver com o uso, com o modo como foram concebidos e a domesticação, com propósitos estéticos ou práticos, sofrida ao longo do tempo. O plástico, por exemplo, é um fiel escudeiro do nosso tempo flexível, moldável e descartável (também pouco biodegradável), como o ferro o foi no século XX, a madeira antes dele, e a pedra antes ainda. Há uma história a ser contada pelos objetos. Me sinto às vezes arqueólogo das coisas do meu tempo.




2. Há algum livro em que você destaque um trecho específico que foi motivado por esse mecanismo?

Meu livro novo – Terra avulsa – a sair em setembro, tem relações viscerais com os objetos. O protagonista Pedro, que é tradutor e escritor, ao fundar um país de 65m2 no seu apartamento, praticamente encontra nos objetos mínimos a sua população. Quando lê os objetos que o cercam, vira do avesso o que somos enquanto matéria humana. Há vários poemas escritos pelo Pedro, assim:


Dr. Martelo

Se o martelo tivesse feito faculdade,

apertaria os dentes para os pregos que falam torto.

Daria correção a quem desvia,

mantendo nojo do suor dos azulejos.


Se tivesse feito faculdade,

o martelo aprenderia a dar porrada

na cabeça dos taxistas, perguntando

se eles sabem com quem estão falando.


Se o martelo tivesse feito faculdade,

assobiaria quando enxergasse

uma marreta subindo escada sozinha

e abandonaria os filhos por uma porca de qualquer bitola.


Se tivesse feito faculdade,

aí sim

o martelo poderia renegar de vergonha

a caixa de ferramentas de onde veio.


Mas como o martelo não fez faculdade,

não precisa trabalhar a vida inteira

só para comprar um cabo do ano

e causar inveja no formão, que é seu vizinho.



3. A relação de um autor com os objetos (que não deixam de ser o mundo que o rodeia) é diferente? Faz parte da função do autor encontrar uma história para cada coisa?

Não se trata de encontrar histórias para os objetos, mas sim de entender o que eles exprimem. Há uma linguagem imanente em cada um deles, e é disto que se trata: buscar o diálogo entre ser e coisa, o eco que nos devolve quem somos a partir das coisas que usamos no dia a dia. Na matéria parece estar uma verdade nova, de um textualidade advinda não do “dizer”, mas do “mostrar”.



4. Há algum objeto em especial que foi determinante para você do ponto de vista literário?

Há inúmeros objetos: no Terra avulsa, um deles toma a capacidade de narrar para si. Trata-se de um mancebo de madeira, aquele cabide vertical, com vários braços abertos em árvore. A princípio o Pedro o usava para marcar a posição dos livros lidos (lia vários ao mesmo tempo). Aos poucos a coisa, o mancebo, assume a palavra e passa a questionar, do ponto de onde observa tudo, a incapacidade humana de ser “si mesmo”: essa “triste figura” descobre que jamais alcançamos a imanência plena, forrados que somos por ideias e esgotados de metafísica. O mancebo é um teórico.



5. Fale um pouco da ideia de seu novo livro.

Em Terra avulsa, o novo país criado por Pedro é apenas visitado pela editora Eudora, mas é um projeto de antemão fracassado, porque busca, de uma forma irreversível, devolver ao homem a sua condição natural. Tudo o que nos cerca já vem rotulado, com marcas de uma pré-significação. O paraíso perdido, nesse caso, poderia emanar da nova natureza, a que criamos à nossa imagem e semelhança – os objetos:

“A questão era por que os objetos tinham tanto medo da liberdade. Ora, o mancebo de madeira explicava, era da natureza se submeter a alguma sintaxe. Natureza?, eu olhava para um açucareiro de plástico, E plástico tem natureza? Tudo é natureza, o mancebo respondeu.

Viu? Tudo era natureza, Senhor Tradutor. O problema era que minha trajetória ao longo da natureza nunca havia existido. Olhava os objetos plásticos. Um coador, um pote, uma tampa, o saleiro. O detergente. Ao pegar veja multiuso reconhecia no plástico uma linha lateral, quase um fio, a denunciar que veio de uma fôrma. Mas já não havia a fôrma. O vínculo, nele que era o objeto acabado veja multiuso, era só um traço que se perdia, como a cicatriz de um umbigo em forma de linha. E atuavam no veja, como atuavam em mim, as forças de uma polícia: o rótulo, o slogan, o peso, as instruções (e os incentivos) de uso, a fábrica, o atendimento ao consumidor, todas as leis gerais da embalagem a desautorizar que veja multiuso 3 em 1 se desviasse de ser o que era pelo seu sentido restrito. Tudo o que lhe era externo o mantinha real, imobilizando-o à condição de produto de limpeza múltipla, 500ml, aroma de pinho silvestre. E veja se encaixava na mão, parava de pé ou respondia com limpeza profunda ao ser requisitado – sem necessidade de euforia. Também eu poderia ter sido feito de plástico, pensava, e moldado para alguma utensilidade específica. No meu rótulo, alguma certidão diria onde fui fabricado, como me usar e as advertências em caso de ingestão ou contato com os olhos. Já me encaixava confortavelmente no sofá, também parava de pé e, sem muito esforço de Eudora, respondia razoavelmente bem à limpeza de sua fotografia. A não ser pela memória, poderia ser plástico e assim desapossar-me de mim mesmo e alcançar aquela inabalável segurança de ser tudo e ser nada.”