Crítica

Como Se Fosse Ferro

Espectro da literatura

Um amigo gaúcho me manda um livro: "Como se moesse ferro". O amigo me diz que o autor tem apenas 25 anos e, em Porto Alegre, é considerado a nova revelação da literatura brasileira.

Em literatura, o Rio Grande do Sul é um estado à parte. Há escritores, às vezes Best Sellers locais, dos quais o resto do país nunca ouviu falar. Há um culto e um orgulho da literatura e das tradições literárias locais, assim como um mercado autossuficiente, consumidor de literatura gaúcha e movido por editoras gaúchas.

"Como se moesse ferro" é o livro de estreia de Altair Martins. É um livro de contos. Dois deles ("Como se moesse ferro" e "Humano") receberam, em 94 e 99, respectivamente, o prêmio Guimarães Rosa, da Radio France Internationale. São os dois melhores, ao lado de "El espectro Del sex-appeal".

Há pelo menos duas formas de se tentar escapar do lugar-comum para dizer o indizível, que costuma ser a ambição de toda grande literatura e, com mais obstinação ainda, de todo jovem escritor. A primeira é pela contenção, pela discrição, pelo não-dito, pela negação da poesia para fazer poesia. A outra, oposta à anterior, é pelo derramamento, pela afirmação de uma linguagem que seja imediatamente reconhecida como poética, pela busca deliberada da poesia por meio de uma combinação inusitada das palavras.

Martins é um adepto natural da segunda via. Uma via mais arriscada, em que as chances de se escorregar para o lugar-comum, o rebuscado e o piegas não são pequenas, sobretudo num país pouco letrado, em que a tendência ao beletrismo costuma servir para compensar a falta de vigor literário. Não é o caso de Altair Martins. Há grandes achados em seu livro (a começar pelo título), e basta ler suas melhores linhas para entender que não lhe falta um talento promissor. Mas a vontade de fazer poesia também não deixa de criar alguns problemas.

Todo gosto e todo olhar são frutos de uma educação e de um repertório. Uma metáfora é boa ou má porque existem outras às quais ela pode ser comparada. Em sua obstinação de procurar metáforas e imagens próprias, Martins acerta e erra. E, tendo em vista a sua idade, acerta mais do que erra.

Seus contos falam da rotina dos casais, de vidas pobres e infelizes a dois, do desenlace violento de cotidianos arrastados. "El espectro Del sex-apppeal", em que um menino expressa seus sentimentos sadomasoquistas por uma mentira retardada, pode ser lido como prenúncio, na infância, dessas relações amorosas adultas.

"Aprendera o nome das cores, desde então repetia-os incessantemente e, para mim, todas tinham a mesma cor: ruiva. Todas as cores tinham sardas e dentes redondos (...) Fazer sofrer será causa de felicidade? (...) A cada beliscão, torção de ossos, quebra de cabelos, eu me feria por dentro (...) E ela era dura, talvez vazia. Contra-atacava com aquele descaso marinho e horizontal. E vermelho. (...) Com raiva, limpei. Gotas de sangue ruivas ou roxas. Sangue de retardada tem cheiro de vinagre."

Sombras Há ideias engenhosas, como quando as sombras do homem e da mulher trocam de corpos em "A hora": "Vestida de mulher, a sombra do homem viu fazer café, comer pão de centeio e iogurte natural. A mulher passou o dia contando piadas sem graça, que ela não percebia que eram do marido".

Ou a repetição em "Humano": "A relação entre eles estava tão desgastada, que a ponta dos dedos sofrera atrito de perder carne e viam-se as falangetas, já roídas também./ A relação entre eles estava tão desgastada, tão desgastada, que a ponta dos dedos sofrera atrito de perder carne e viam-se as falangetas, já roídas também./ A relação entre eles estava tão desgastada, tão desgastada, mas tão desgastada, quanto repetir três vezes a frase ruim em que a ponta dos dedos sofrera atrito de perder carne e viam-se as falangetas, já roídas também".

Há trechos bem-sucedidos: "Doravante o mundo fica maior, mansões viram casinhas meia-água de duas janelas, tudo fica mais longe. E um bêbado, em algum lugar, tem que parar de beber". Ou: "Era um homem que batia ferro como se moesse mármore. (...) Era um homem que batia ferro como se moesse milho. (...) Era um homem que batia ferro como se moesse as mãos. (...) Era um homem que batia ferro como se moesse moscas" etc., pontuando o conto que dá título ao livro.

Mas também há os clichês: "Os olhos eram porquês de desespero"; "saio tropeçando nas intimidades da chuva"; "fumou o desespero do tabaco"; "estrangulou longas lembranças de anos em segundos"; "procurando o embora"; "o aquário dos dias"; "passei a manhã procurando um suspiro"; "apertei a incerteza do envelope"; "tentei costurar o agora" etc.

A certa altura, o narrador de um dos contos pergunta: "Empatar com a vida não é frase muito brega?" Não. Tem piores.

Bernardo Carvalho