Crítica

Terra Avulsa

O complô

Breves apontamentos sobre Terra Avulsa, de Altair Martins O escritor argentino Ricardo Piglia formula em seu ensaio “La novela polaca”, uma série de considerações sobre a formação da tradição literária argentina, e usa Ferdydurke, do escritor polaco Witold Gombrowicz, como um eixo ou contra-eixo para as questões centrais do romance argentino no século XX. Piglia afirma que toda verdadeira tradição é clandestina e, retrospectivamente, se constrói na forma de uma espécie de complô.  Não é à toa que certos complôs se tornam oficiais, como no caso de Gombrowicz, que recebeu uma grande homenagem neste mês de agosto: um congresso internacional destinado à sua vida e obra, na Biblioteca Nacional da Argentina, em Buenos Aires (o polaco viveu uma parte importante de sua vida na terra de Borges).

A obra deste polonês, que se radicou na Argentina e morreu na França, tem na análise psicológica, na dicotomia maturidade/imaturidade, no absurdo e no antinacionalismo, um espelho. Mas neste espelho, bem ao fundo, um pouco desfocado, é possível ver um livro: Terra avulsa, de Altair Martins.

Este livro desfocado e borrado como uma fotografia à deriva espia por algumas frestas gombrowiczianas: um homem que funda seu próprio país em um apartamento. É esse o movimento heróico que o tradutor Pedro Vicente, após ser assaltado por dois homens, decide seguir. E trancado em seu apartamento traduz poemas de um autor nicaraguense, e como se isso não bastasse, procura se tornar inanimado, como os objetos da sua casa (os cidadãos de seu país inventado, essa espécie de zona autônoma temporária, terra avulsa). A narrativa mistura poesia, fotografia e prosa, como uma luz que resolve se sobressair à imagem de Gombrowicz numa fotografia.

Então imagine se os objetos dessa foto do Gombrowicz ganhassem vida, ou melhor, poemas. Se o cachimbo, o copo, a caneta, a gola fechada da camisa desta fotografia resolvessem se revoltar e pular da fotografia, em busca de um espaço próprio. Assim é Terra avulsa, narrativa atravessada por camadas, que não desapontará o leitor que resolver trilhar esses inúmeros caminhos. Literatura é sobretudo risco, e Altair Martins corre todos os possíveis, e se em alguns momentos o livro parece que vai afundar, surge ainda mais vigoroso na página seguinte, numa experiência cíclica e enviesada. E tudo num complô contra a literatura, pois a arte perturba os satisfeitos e satisfaz os perturbados, como já disse o sábio senhor da fotografia acima.

Carlos Henrique Schroeder