Crítica

Terra Avulsa

Morando num país de 55 metros quadrados

Sei lá porque cargas d’água (escrevo estas linhas ouvindo o barulho de uma forte chuva, por isso me perdoem o clichê) resolvi assistir com meus alunos ao filme Encontrando Forrester, com Sean Connory. Forrester é um escritor recluso em seu apartamento e seu único contato com o mundo exterior é um empregado que lhe leva os cheques dos direitos autorais do único livro que lançou, sucesso de vendas e leitura obrigatória nas escolas. Acaba conhecendo um jovem do bairro em que se escondeu, o Bronx, em Nova Iorque, um negro jogador de basquete e leitor inveterado, que esqueceu uns cadernos com seus escritos na casa do escritor, onde entrou escondido para cumprir uma aposta com os amigos. Nasce daí uma amizade gerada pela literatura.

A literatura me fez assistir ao filme. Gosto de histórias que têm escritores como protagonistas, ou que a literatura seja o pano de fundo para o desenrolar do enredo. Foi isso que me levou a ler o recém-lançado Terra avulsa, de Altair Martins (Record, 310 páginas), que guarda semelhanças com Encontrando Forrester. O romance relata a história de um professor de língua espanhola, Pedro Vicente, que, depois de sofrer um assalto, se isola num apartamento no centro de Porto Alegre, onde funda sua própria república. “Vivi no meu país, um território menor que o Vaticano, bem menos canalha também.”

Na sua nação particular, traduz os poemas do nicaraguense Javier Lucerna e escreve sobre a vida do escritor e ativista político. (E aqui, abro um parêntese para um segredo nem tão secreto assim: em palestra na Unisc, Altair Martins, além de antecipar trechos da obra para a plateia, revelou que havia criado uma falsa página do personagem Javier Lucerna na Wikipédia, não só dele como de alguns outros personagens que aparecem no romance, como se todos fossem reais. Claro que as tiraram da rede.)

Pedro Vicente também ocupa seu tempo com muitas leituras e a criação de seus próprios poemas a partir de fotos tiradas por sua editora, Eudora. Imagens de objetos do cotidiano, como abridor de lata, clipes, mangueira, cadeado, tampa de garrafa, tapete de corda... Esses poemas e as fotografias perpassam toda a narrativa, embaralhando qualquer classificação que se possa fazer do romance. E é a editora o elo dele com o outro país, o Brasil. E vai ao apartamento todo o domingo e lhe traz o que ele precisa, o mantém vivo, de certa forma.

Em paralelo é contada a história de um dos bandidos que cometeram o assalto ao professor. Ele utiliza a identidade de Pedro Vicente e parte das traduções de Javier Lucerna que estavam na pasta roubada para conquistar uma funcionária de uma farmácia. Uma história dentro de outra história, assim como há um país dentro de outro país.

O ladrão deseja ser o tradutor. O tradutor deseja ser o escritor. “1. de vez em quando me ocorre ser Javier Lucerna”, é a primeira frase do romance. E o resenhista gostaria de ter sido o autor desse grande romance.

Cassionei Niches Petry é professor, mestre em Letras. Autor de Arranhões e outras feridas (Editora Multifoco) e Os óculos de Paula, que será publicado brevemente. Escreve regularmente para o Mix de letras, da Gazeta do Sul, e mantém um blog, cassionei.blogspot.com.

Cassionei Niches Petry