Crítica

Terra Avulsa

O desviante

Não existe nada que tenha sido alguma vez escrito, ou pintado, esculpido, modelado, construído, inventado, a não ser para sair do inferno — escreveu o poeta e ator francês Antonin Artaud (1896-1948). A frase, que guardo anotada em um marcador de livros, não me saiu da cabeça enquanto lia Terra Avulsa (Record), o novo e desafiador romance do gaúcho Altair Martins. A história do tradutor Pedro Vicente, um homem que, depois de ser assaltado na rua, tranca-se em casa e nela constrói seu próprio país, com suas regras, sentidos e valores autônomos — a “terra avulsa” de que trata o título do livro. Recebe visitas dominicais da fotógrafa Eudora, a partir de cujas fotos escreve estranhos poemas. Romance embutido no romance de Altair, outra história — a dos assaltantes de Pedro — se mistura à sua própria história.

Para sair do inferno — a violência que se espalha pelas ruas e que o atinge —, o narrador cria um mundo independente, com suas próprias normas, rituais, crenças, superstições. Transporta, assim, a literatura para a própria vida, que toma a forma inesperada de uma ficção. Ele se deixa guiar por uma figura de linguagem, a hipálage — expediente retórico que produz uma troca ou substituição de lugar entre as palavras, funcionando, assim, como um deslocamento, ou um desvio. “Eu podia provar que, apesar de ser uma figura de retórica antiga, aquela era a figura do brasileiro”, escreve. O que o seduz na hipálage? Ela mostra “um desajuste entre gramática e lógica e também a ruptura da linha sintática”. Desajuste e ruptura, duas palavras que definem com precisão não só a figura retórica, mas a aventura do personagem de Altair Martins. Deslocamento, deslize, desvio.

Uma beleza discreta, substantiva, fanaticamente agarrada aos fatos — ainda que aos fatos ausentes da ficção. Desvios da ordem banal do mundo e também da boa norma literária, o que transforma Altair Martins em um dos mais surpreendentes escritores de sua geração.

Um mundo no qual as coisas parecem estar em um lugar, mas na verdade estão em outro. Um mundo em que você vê uma coisa, mas outra, mais forte, lateja atrás dela. Um mundo digno de desconfiança, o que leva o narrador a preferir o isolamento e a construção de um país individual, que não só desmente o país real, mas a ele se contrapõe. Reflete: “Não deixava de ser uma anomalia do discurso, a hipálage. E o estranhamento talvez viesse da psicolinguística: hipálage é uma atribuição a x de coisa pertencente a y, desde que se estabeleça um vínculo de transferência entre x e y”. Desse modo, a realidade se torna cifrada e pede desvendamento. Pede interpretação. Exatamente como acontece na própria literatura, onde as coisas nunca estão onde as procuramos.

O protagonista de Terra Avulsa tem uma dolorosa nostalgia da precisão. Lembra-se sempre da primeira vez em que leu Luís de Camões e “foi também a primeira vez em que ouvi algo tão harmônico quanto a música”. No assalto que sofreu, viveu, na carne, a experiência aflitiva da desarmonia. Os assaltantes lhe levaram o computador e todos os documentos. Isto é, o instrumento de trabalho e a identidade. Levaram mais que isso: carregaram consigo sua confiança no funcionamento do mundo. Não perdeu, contudo, a paixão pelo escritor nicaraguense Javier Lucerna (1936), de quem é um tradutor obstinado. Basta aqui recordar a primeira frase do romance de Altair: “De vez em quando me ocorre ser Javier Lucerna”. Dá detalhes: “Então nasço na Nicarágua, em Somoto, pelas mãos do Dr. Carlos Herrera, e me crio comendo o gallo pinto de minha mãe, Benita Solíz”.

Quando escreve seus poemas, inspirados nas fotografias de Eudora, tem sempre a dúvida se eles são realmente seus, ou se simplesmente encena (mal) a escrita de Lucerna. “Eu temia estar imitando demais o Javier Lucerna”, explica à mulher. Gosta, porém, de escrever versos a partir dos objetos que a amiga fotografa. Procura outro espelho. Pensa no poeta francês Francis Ponge (1899-1988), que fez uma revolução ao escrever sobre uma caixinha de frutas de madeira, e também no italiano Eugenio Montale (1896-1981), que escreveu poemas sobre limões e enguias. “Nem um nem outro, contudo, usava a hipálage”, constata. Conclui: “Meu problema era Lucerna, que transferia às montanhas, vulcões e lagos da Nicarágua a angústia dos homens explorados”. Hipálage, portanto. Para chegar ao coração dessa angústia, Lucerna passou a fazer poemas sobre objetos humanos: chapéus, bujitas, jipes, metralhadoras. “Se eu também queria transferir aos objetos a medula das pessoas, me faltava encontrar um caminho original”. Fundando um país independente dentro de casa, espera se aproximar melhor disso.

Sabe que, se escreve sobre objetos externos, escreve, ainda assim, para falar de si. Pergunta-se: “Estou tentando uma biografia? Nasci, é certo, e ninguém assumiu minha autoria. Sou um tradutor, mas preciso entender qual é o meu idioma de chegada”. O tradutor é um intermediário, que oferece sua voz a outro. Lugar, portanto, de um vazio — pois seu principal objetivo é ausentar-se ao máximo das palavras traduzidas para que outro fale em seu lugar. Pergunta-se: onde ele mesmo fica em tudo isso? Pensa no pai, “e não é porque creia que não tive pai”, mas é “porque sei que não tive a sensação disso”. Conclui: “Uma ausência-ausência é invenção e é o meu caso”. Sobre esta ausência-ausência — muito diferente da ausência clássica, que ocupa o lugar de uma presença — o personagem de Altair constrói as linhas de seu território, tendo compromisso apenas consigo mesmo e mais ninguém. Ao fundar seu próprio país, chega à estranha conclusão de que “não precisava existir para existir”. Há algo que se aproxime mais da ficção, algo que, a rigor, não existe (presença da ausência?) e que, no entanto, possui uma força descomunal e uma presença atordoante?

O personagem de Altair não só escreve poemas, mas funda seu país particular para sair do inferno (Artaud). Consegue mesmo sair, ou só lhe dá novas e disfarçadas feições? Seus arriscados desvios para chegar a si mesmo constroem a beleza do romance que lemos. Uma beleza discreta, substantiva, fanaticamente agarrada aos fatos — ainda que aos fatos ausentes da ficção. Desvios da ordem banal do mundo e também da boa norma literária, o que transforma Altair Martins em um dos mais surpreendentes escritores de sua geração. O que Terra Avulsa, enfim, só vem reafirmar.

José Castello