Crítica

Enquanto Água

Contos premiados

Intensos, precisos. E, em certos momentos, cruéis - como o é a própria vida, muitas vezes. Assim são os contos de Enquanto Água, do escritor gaúcho Altair Martins, livro que recebeu na última semana o 2º Prêmio Moacyr Scliar de Literatura.

As 18 histórias que compõem a obra estão divididas em quatro blocos - Chuva na Cara, Depois da Chuva, Garoa e Água com Gás -, e todas incluem algum elemento que remete à água do título. Cada texto é exato naquilo que quer contar, praticamente sem excessos, mas ao mesmo tempo criando cenários na mente do leitor.

O primeiro conto, Da Margem Futura, apresenta uma mulher que sofre com o marido, um pescador que sempre está bêbado. Antevendo um futuro triste para sua filha, ainda bebê, ela fica tentada a aceitar a proposta de Rubem, dono de uma fruteira, que quer que ela deixe o marido e atravesse o rio à noite para encontrá-lo na Argentina. A trama, aparentemente simples, é entremeada de angústias, indecisões, cheiros e esperanças - e com um final, no mínimo, inesperado.

A mesma angústia está presente em praticamente todos os outros contos, em maior ou menor grau. As temáticas, entretanto, variam. Há o homem que sofre com a separação da mulher e das filhas e que se torna vítima de ataques de pânico, em Presença. O advogado que pode ou não ter tido um filho, em O Vão Esquerdo da Ponte. Os rios que somem, no curto Quase Oceano, Quase Vômito. A mulher acusada de causar tempestades devido a uma traição, em A Última Mulher Adúltera. Essas e outras histórias são contadas em tom muito vívido, de forma que o leitor se vê partilhando os anseios, sofrimentos e expectativas dos personagens.

Tal qualidade, por certo, foi decisiva para Enquanto Água ser escolhida como vencedora do prêmio, concedido pelo Instituo Estadual do Livro (IEL), ligado à Secretaria da Cultura do Rio Grande do Sul, e pela Associação Lígia Averbruck. Vale, entretanto, dizer que esse não é o primeiro prêmio recebido por Altair Martins. Com o mesmo livro, ele já havia vencido o Açorianos e sido finalista do Jabuti, na categoria Contos. E, anteriormente, com outras obras, venceu duas vezes o Prêmio Guimarães Rosa (1994 e 1999), outro Açorianos (2000), o Josué Guimarães (2001), o Luiz Vilela (2000) e o São Paulo de Literatura (2009), este último com o romance A Parede no Escuro.

Qualificativos mais do que suficientes para garantir que vale a pena a leitura dos contos premiados.

Maristela Scheuer Deves