Crítica

Enquanto Água

Enquanto água

No mais recente Paiol Literário, aqui em Curitiba, Altair Martins (1975) disse: “O narrador em terceira é perigosíssimo hoje. Porque é a pretensa verdade. É aquele narrador que pára e diz: “Fulano nascera…”. Não dá mais. Ninguém mais acredita nesse narrador que quer te convencer: “Eu tenho uma bagagem histórica sobre o personagem e agora vou mostrá-la”.”

Martins, que é doutorando em Letras pela UFRGS, já tem publicado quatro livros (A parede no escuro, romance de 2009, foi vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, na categoria autor estreante). O mais recente, a coletânea de contos Enquanto água (Record, 2011), é a reafirmação da frase do primeiro parágrafo. Em uma sucessão de contos, na maioria breves, Martins constrói uma obra cujo narrador está em constante crise: isso sem deixar de lado um grande talento para simplesmente contar uma história.

Os 18 contos — alguns deles já publicados em revistas ou outras antologias — são divididos em quatro partes: “Chuva na cara”, “Depois da chuva”, “Garoa” e “Água com gás”, e as histórias encontram uma convergência dentro de cada divisão. Os contos da primeira parte são, quase todos, brilhantes. Em “dois afogados”, o narrador utiliza recursos ousados (como placas de trânsito e uma alternância de vozes) para criar uma história que vai muito além da própria narrativa. Lembrei, lendo, de uma passagem de um livro de Luiz Felipe Leprevost que se encaixa magicamente aqui: “Segui placas de contramão”. “homens de verdade” insere o tema da homossexualidade no livro narrando a história de jovens (crianças) cruéis. Um dos recursos utilizados nesses contos é o final arrebatador: quase sempre na última linha. Isso é muito difícil de ser bem realizado, e lembra, por exemplo, Cortazar.

A segunda parte, com apenas um conto, simboliza uma ficção um pouco diferente. Se é comum vermos uma linhagem que utiliza a própria literatura como artifício (da qual sou fã, assim como Altair Martins, pelo que parece; cito Enrique Vila-Matas como exemplo), Martins utiliza o conhecimento teórico da área de humanas para produzir um Mal de Montano às avessas: o personagem parece enlouquecido pelo próprio excesso de conhecimento (aparecem teorias de Peirce, Langmuir, Lévi-Strauss, Lacan, Borges, e outros).

A terceira sessão, “garoa”, guarda eco exatamente de Borges: uma metafísica aplicada que pretende criar um mundo particular, com elementos que pedem uma segunda olhada, e que te faz dizer: “é isso mesmo?”. Por exemplo, no conto “quase oceano quase vômito”:

“Aquele rio não aceitaria assim tão fácil. Dominava um continente e um pátio no oceano. E quando amanheceu completamente água, e nu, como se nascendo, não houve quem não se espantasse. Era o primeiro dos tantos rios que, sem explicação, voltavam à limpidez original. Eram rios tão puros que os leitos podiam ser lidos”.

A quarta sessão, “Água com gás”, mostra todo o talento do escritor ao praticamente fazer um resumo do livro: histórias interessantes com estruturas bem pensadas e nunca tradicionais. No conto “o mar, no living” (título de um poema de Carlos Drummond de Andrade, que dá a seguinte epígrafe: “o mar tudo recobre / sem nada asfixiar”), o próprio mar, isto é, a água invade o ambiente de uma festa de aniversário infantil:

“E então, mal a vela se acende, o mar entra no living, atravessando os vidros e ocupando, com azul e fauna, os espaços da fest. E posto seja mar e se comunique com o oceano, ele surpreende em ser tudo menos violento, e não apaga vela ou palma. Apenas que a festa segue, percebida pelos sentidos abafados. É a luz de uma vela sob o mar. É um parabéns afogado. São raízes da fumaça dentro d’água”.

É exatamente a água o ponto chave desse livro (claro): a água, que às vezes aparece apenas como rio, mar ou chuva, mas muitas vezes como metáfora de sentimentos tão humanos como a esperança, a saudade, o arrependimento, a traição e, em última instância, a morte.

Outro aspecto importante na obra de Martins, segundo o próprio, é o engajamento.

“[A literatura] deve mostrar que existe uma pretensão de realidade, muito falsa, produzida às vezes pela mídia. Existe um Brasil da televisão e existe o Brasil real. Então, a função da literatura é esta: de alguma maneira corroer a verdade que pretende ser verdadeira. Por isso o engajamento. O escritor não pode deixar de mostrar que essa realidade é falsa e mostrar uma outra realidade possível — que, ao meu ver, só a literatura vai mostrar.”

Quando uma mulher enfrenta dificuldades com o marido alcoólatra e tenta fugir com o pastor da igreja; quando um homem muito religioso, esmagado por uma culpa muito grande, se vê incumbido de cuidar de duas filhas e percebe que não é capaz; quando uma mera brincadeira doméstica vira tragédia. Pequenos exemplos do engajamento de Martins: sempre recoberto por uma camada de excelente prosa ficcional, percebe-se um texto preocupado com o lugar que a própria literatura pode ocupar em uma sociedade de não-leitores.

Trecho do conto “unha e carne”, que narra a relação de Irene (mãe), Luciana (filha) e Jorge (padrasto):

“Luciana pediu café. Antes que Irene se rendesse e lhe pedisse para não acreditar nas coisas que ouvia, a filha arranjou modos de olhar o relógio, inquietar os cabelos, atirar os olhos aos cantos e dizer que tinha de ir, senão chegaria atrasada ao trabalho. Irene, ao portão, sentia então que mais coisas ficariam à espera da água. A filha ainda disse Não precisa ir se não quiser. Mas Irene sabia, desde que Luciana fora morar sozinha, que aquilo tudo entre a filha e Jorge era como a louça. Não precisava lavar se não quisesse.”

Guilherme Sobota