Crítica

Enquanto Água

Textíssimo

Foram duas leituras impactantes nesta quinzena que começou muito bem, em que assisti ao excelente encontro entre Altair Martins e José Castello na Casa de Ideias, aqui em Porto Alegre. Muito mais do que uma palestra sobre literatura – que às vezes ou vira promoção de livro ou se inclina para a crítica amigável, quando não especialíssima e fechada –, o diálogo entre os dois escritores foi uma instigante conversa sobre histórias por trás da história. Não é curioso, conhecer fofocas sobre a escritura do livro? Altair Martins foi o atento leitor do romance Ribamar, de Castello, autor que fez uma verdadeira sessão de psicanálise diante da plateia, contando sobre a dificuldade de escrever o texto, cujo título e história remete ao seu pai.

Agora que leio Ribamar, entendo melhor do que ele falava. Mas essa desleitura fica para a próxima, assim que eu terminar o livro, porque antes dele eu li contos do Altair, uma das leituras impactantes de que falarei aqui. Então: falarei de Enquanto água, do Altair Martins, e de um filme de 1959, o Passado não perdoa. Antes de começar, pelo filme, quero apenas citar dois vídeos a que assisti pelo Facebook antes de começar a escrever: a campanha australiana contra a combinação entre álcool e direção – equivalente ao nosso "se beber, não dirija" –, compartilhada pela jornalista osoriense Carla Santos, e o curta School portrait, de Nick Scott, compartilhado por Juliana Szabluk. Foi juntando todos esses textos que surgiu o título "tudo é vida", pois, ao fim e ao cabo (como dizia o querido Moacyr Scliar), é disso que trata a literatura, desse curtíssimo período entre o nascer e o morrer e o que fazemos com ele, para nós mesmos e para aqueles que compartilham a nossa jornada.

Começo pelo filme: O passado não perdoa. Não foi uma escolha minha, simplesmente colocaram no aparelho de DVD e eu me sentei junto da família para assistir. Se alguém me tivesse contado do que se tratava essa história dirigida por John Houston, é bem possível que eu me negasse a assistir. Mas, quando eu vi o nome do diretor e o nome da atriz, Audrey Hepburn, nem hesitei, pensei logo que seria um ótimo programa de fim de noite, apesar da evidência de ser um bang-bang. E bang-bang sem John Wayne… Ok, mas com Burt Lancaster. Inicialmente, a história parece um daqueles filmes estadunidenses sobre disputa de terra e massacre de índios – índios no plural, que vêm em bandos, não tem nome, não são personagens, mas um inimigo natural, como as pragas e as tempestades. Logo ficamos sabendo que é mais do que isso, que existe um segredo. O mistério começa com a aparição de um homem nas terras dos Zachary, que logo faz a matriarca empunhar a espingarda. O centro do segredo é o passado de Rachel, filha adotiva da família, e esse passado é que a condena: ela é uma índia. Diante dessa suspeita, de um lado, os vizinhos dos Zachary começam a exigir que eles abandonem as terras, recusando a antiga parceria de trabalho mútuo com o gado, e, de outro, os índios da tribo Kiowa exigem a reparação, e chegam ao rancho oferecendo três cavalos em troca da irmã. Enquanto os índios começam de forma pacífica, os texanos brancos iniciam pelo preconceito contra Rachel, agredindo a família, e até mesmo um dos irmãos quer despejá-la de casa, chamando-a de índia como se fosse a mais terrível das ofensas.O tamanho do preconceito e a forma como se desenrola a história é de espantar. Embora talvez não seja exatamente correto esperar um final romântico, que não caiba na realidade estadunidense daqueles tempos de faroeste, também não se pode esperar um desenlace como o que eu assisti. Os últimos 20 minutos do filme fazem o queixo cair na espera de uma solução para o impasse, e a respiração fica suspensa com cada índio que se aproxima de Rachel na invasão do rancho. Mas John Houston resolveu mesmo mostrar a crueldade do ser humano – diga-se: branco. Talvez eu devesse aqui contar o final, assim haveria uma chance de impedir que alguém mais se enchesse de tantas doses de preconceito, mas não se pode nem fugir do passado – e esse passado também é nosso – nem ignorar as suas heranças para o presente. Essa história texana me fez pensar nos muitos filhos "adotivos" dos anos escuros da ditaduras latino-americanas, em que crianças que tiveram seus pais desaparecidos nos porões das polícias militares foram acolhidas pelas famílias dos próprios carrascos. No filme, o pai de Rachel não apenas matou os pais da menina, como também foi assassinado pelos índios. Como resolver a questão?

Se no Texas falta água, que purifica e até cura, a água é o mote do livro de contos de Altair Martins, Enquanto água. Uma das premissas da arte é seu poder de deslocar o ser humano, tirá-lo do seu eixo, desestabilizar, alterar nossa zona de conforto. O filme de Houston tem disso, choca pela habilidade de ser cruel, seco, impositivo até – mas a mim causou aquela espécie de revolta que acaba por recusar a própria fonte. Por outro lado, essa visão da arte em certos objetos – livros, filmes, música… – às vezes, ocorre de uma metaforma. Explico: às vezes é a consciência do próprio fator artístico que faz a gente pensar no que seja essa espécie de dádiva, dom, habilidade, que encontramos nessas expressões. Em vez de a história, ou apenas ela, mexer com a gente, por exemplo, é o próprio jeito de contar, é aquela marca de uma autoria especial que nos faz pensar: nossa, o jeito como isso foi construído é lindo, ou estranho, ou isso me enoja, me emociona, me fere… isso é arte. E aí eu fico pensando nas decisões do diretor de O passado não perdoa…

Essa antecipação da forma diante do conteúdo aconteceu comigo frente ao livro de Altair, quando entendi sua proposta: dezoito contos "líquidos", às vezes turvos, às vezes transparentes, difusos, borbulhantes, engolfantes, redemoinhos… Para isso, ele dividiu em quatro grupos: Chuva na cara, Depois da chuva, Garoa e Água com gás. Pensei logo na questão do mote para as histórias e da dificuldade – beirando o impossível – de um escritor desse planeta azul conseguir inventar tantos contos diferentes que pudessem ser reunidos sob o tema da água. E escrever tantos contos bons, mesmo razoáveis, então seria realmente uma mágica que nem a dança da chuva tornaria possível. A primeira surpresa: dos dezoito contos, sete já haviam sido publicados entre os anos de 2008 e 2009 em diferentes periódicos, coletâneas e antologias. Ou seja: como uma maré, a água vem e vai na vida de Altair, mas ele não a deixa secar de todo, ele bebe da fonte. Nada de encomendas, de sugestões desesperadas para insights, é simplesmente um escritor que escreve.

Um escritor que escreve. Um escritor de talento que escreve. Escreve, a gente lê, e pensa sobretudo nisso: arte literária. Na orelha do livro, Ronaldo Correia de Brito confessa ter lido e relido A parede no escuro, primeiro livro do Altair, "como se desejasse confirmar que Altair escrevia mesmo tão bem". Foi exatamente isso que se passou comigo: a surpresa de me deparar com um escritor que escreve de um jeito… a sutileza em lidar com as palavras e encaixá-las num eixo que, equilibrado, desequilibra. Cada história um todo firme que ao mesmo tempo se liquefaz na gente, e nos arrasta na enxurrada, umedece nossas sensações, seca a garganta, encharca a alma…

Em "Chuva na cara", os contos batem no rosto. Importa se estamos ou não abrigados, de guarda-chuva em punho, ou dispostos ao banho, talvez à dança. O primeiro conto é sobre um pescador, mas, não espere encontrar a luta entre a mão calejada na linha e o peixe, não espere encontrar o mar inimigo. A mulher do pescador, que recebe a ordem silenciosa de fritar o peixe, essa é que rema contra a maré. No segundo, o mar só é inimigo enquanto metáfora de um afogamento interior: o homem mar de si mesmo. Aí, não espere finais felizes. Aliás, não espere barcos que aportam tranquilos, chuvas de verão ou banhos rejuvenescedores, a água pode ser traiçoeira em zonas profundas, e Altair nos joga na correnteza, no redemoinho, naquele ponto onde não dá pé. A chuva que bate na cara às vezes nos fere a visão, como em "Homens de verdade" e "Dois afogados", e às vezes, mesmo prevenidos pela meteorologia, ainda assim nos encharcamos, como em "Unha e carne". Outro ponto a comentar: os títulos, arte à parte. "Unha e carne" e "O vão do lado esquerdo da ponte" merecem prêmio na categoria Título perfeito para o que veio.

Na segunda sessão, "Depois da chuva", acontece aquela espécie de silêncio depois da tempestade, quando o mundo parece parar, gotículas que refletem o sol podem confundir ou embelezar.O conto "O núcleo das estrelas" pode ser hipótese para uma tese: teoria é ficção? Ficcionalizar e teorizar, não estariam ambos ancorados em uma mesma dicotomia: desconstruir o real e imaginar? A matéria de um a vida, do outro, o discurso sobre ela. Não sei, estou apenas teorizando, ou ficcionalizando a escrita de Altair. Porque, como leitora, posso inventar teses para a história. Assim como Altair inventou seu Aleph[1] em "O resumo do mundo". Para Borges, o infinito, para Altair, o suprassumo, a "Superágua", isso já na terceira sessão, "Garoa", porque o tempo da estiagem é curto.

Em "Água com gás" está meu conto preferido: "O mar, no living". Nem é pelo meu eterno pesadelo da onda gigante, que vem chegando, irrecusável, quando eu abro a porta da sala enquanto durmo. A liquidez é ácida, penetra no corpo e altera os estados químicos da alma, borbulha na gente. No entanto, a água também pode tornar leve o peso do corpo – corpo passado, corpo mágoa. Sulcando pela insistência, a água é capaz de transformar. Como no vazamento de "Patologia da construção", a água também é uma espécie de condutor para sobras e importâncias. Se a água passa, é sinal de lacunas, de veios tortos, de fendas escondidas. "Enquanto água", conto que dá nome ao livro, parece conversar com Poe[2], sem um gato emparedado, mas com gatos atravessando janelas. Nessa última sessão, a liquidez da água parece aumentar, chegando ao estado do fantástico, ápice em "Toda novidade do mundo".

Altair traz a vida, cotidiana e reles, às páginas de seu livro, ora em gotas, ora em ondas, tempestades, águas para as quatro estações e para muitas e múltiplas leituras. As histórias terminam e, como o chão depois que a chuva passa, apenas revelam sombras de umidade, poças aqui e ali, folhas arrastadas, galhos derrubados, goteiras.

Como colocar os contos de Altair, o filme de Houston, a campanha australiana e o vídeo de Scott no mesmo bojo, esse de que falo, da arte que revela e ao mesmo tempo desmente a vida, da arte que nos tira do chão, seja para flutuar, seja para nos jogar contra a parede? Não estão no mesmo copo, são expressões as mais diferentes. No entanto, não podemos fugir desse planetinha água, e, assim, a matéria de tudo é uma só: a vida, que nasce na água e, se a ela retorna, é irreconhecível, é outra, como o leitor ao fim do texto.

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[1] O Aleph é um conto do escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), publicado em livro de mesmo nome em 1949, que narra o mistério de haver um lugar em que é possível espiar o todo do universo, situado no porão de uma casa em Buenos Aires.

[2] Edgar Alan Poe (1809-1849), escritor norte-americano precursor da literatura fantástica. "O gato preto" é um de seus contos mais conhecidos. Sigam o link para ler.

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Ana Munari