Crítica

Como Se Fosse Ferro

Altair Martins, um grande autor que entra em cena

Jovem de 24 anos acaba de publicar o irretocável 'Como se moesse ferro'

Afirmar que um autor é uma revelação, ou pelo menos uma promessa, porque lançou um livro de qualidade aos 24 anos, além de nada dizer a respeito do autor em questão, serve apenas para atestar os preconceitos de quem faz a dita afirmação. Arthur Rimbaud produziu toda a sua obra antes dos 20 e Clarice Lispector escreveu seu primeiro romance, o extraordinário Perto do coração selvagem, aos 17; mas José Saramago publicou Levantando do chão, seu primeiro livro de qualidade, aos 58 anos. Portanto, essas correspondências entre a qualidade literária e a cronologia são absolutamente fúteis, para não dizer traiçoeiras.

Por isso é preciso afirmar, com veemência, que a literatura brasileira acaba de ganhar um grande autor – e não uma revelação. Ele se chama Altair Martins, tem por acaso 24 anos e caba de publicar um livro irretocável, a coletânea de contos Como se moesse ferro (WS editor, 128 páginas, R$ 12).

O conto que empresta o título a essa reunião de 11 relatos deu a Altair Martins, no ano de 1994, o prestigiado Prêmio Guimarães Rosa, concedido pela Radio France Internationale. Ninguém deu importância, porém, nem ao conto nem ao novo autor – o que é bem diferente de autor novo. Cinco anos depois, com Humano, relato que fecha Como se moesse ferro, Altair Martins conquistou, pela segunda vez, o mesmo prêmio da Radio France.

Grudados no chão Altair escreve para apontar o horror que sustenta a vida comum. Seus contos, apesar de primarem pela liberdade interior, estão grudados ao chão. Rastejam e levam o leitor a rastejar também. Raras vezes aparece um autor com uma modulação tão particular, dono de recursos ao mesmo tempo sofisticados e vigorosos – qualidades que costumam excluir-se. A escrita de Altair poderá ser considerada, por leitores mais amaneirados, um pouco "suja"; mas não é de sujeira que se trata e sim de energia que, se nos sufoca, nos arrasta também.

Escreve com acidez, manipulando o poder de corrosão da escrita – e, no Rio Grande do Sul, dominado pela tradição das sagas positivas, só pode ocorrer um nome, não assemelhado, mas igualmente extraviado como termo de comparação: o de João Gilberto Noll.

Como Noll, Martins manipula um pessimismo e uma amargor que, no entanto, se tornam armas. Ele escreve nervosamente, com aflição, o que, se pode perturbar leitores mais metódicos, só arrefece as ilusões dos que julgam que a literatura importante é aquela produzida só com a inteligência, ou como um jogo intelectual.

Os temas de Altair Martins não têm relação alguma com a tradição gaúcha, que vem de Érico Veríssimo. Ao contrário, são relatos introspectivos e que travam uma relação quente com a língua (formam-se cheios de elipses, de aliterações, de repetições às vezes meio ocultas, de deslocamentos bruscos). Há um poeta trabalhando por trás do contista.

Há também um forte elemento pessoal que merece ser mencionado. Como se moesse ferro, conto de escrita mais anárquica, representa, admite o próprio Altair, uma fase anterior ao momento em que ele se descobriu um diabético do tipo 1, isto é, um dependente de insulina. "Essa descoberta foi um grande benefício em minha vida", diz, no mesmo estilo atordoante de suas narrativas. "A doença me deu concentração". Logo depois do diagnóstico, Altair escreveu Convite para uma vida secreta, um dos mais belos relatos do livro, que tem como personagem central um homem de vida dupla, rachado entre duas dimensões existenciais, que não podem se completar. A preocupação com a linguagem aumentou – e isso fica evidente na série de quatro contos finais do livro, todos produzidos nessa fase da diabete.

Os relatos de Altair Martins têm uma forte influência da poesia, que se manifesta sobretudo no som e no ritmo. Há muitas repetições, ou o que ele chama de "frases cíclicas", que iniciam e terminam nelas mesmas. Apesar da linguagem sobrecarregada, que pode indicar destemperança, Altair é um tipo aplicado, que acaba de terminar a graduação em francês na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e inicia, lá mesmo, a graduação em russo. Sobrevive como professor de literatura brasileira em cursos de pré-vestibular. Em suas aulas, prefere, em vez de teorizar sobre os autores que ensina, ler em voz alta alguns de seus textos. Já foi ator de teatro. Deixou o palco, mas continua a interpretar escritos de grandes autores para seus alunos.

Altair Martins tem o hábito de ler seus contos em voz alta. Vai mais longe: ele os ensaia falando. Antes de escrever uma só linha do premiado Humano, ele o contou por inteiro a um grupo de amigos. Só depois conseguiu confrontar-se com o papel. Seu primeiro senso, como se dá entre os poetas, é estilístico – e só depois vem o senso semântico. A abertura de Humano traz um exemplo. A primeira frase do conto, repetida três vezes, anuncia toda a atmosfera do relato. Quando a escreveu pela primeira vez, Altair logo sentiu que era uma frase horrível e decidiu melhorá-la. "Escrevi de novo, saiu a mesma coisa", diz. Tentou mais uma vez, mais uma vez o resultado foi péssimo. Aí entendeu que era preciso registrar no conto esse fracasso, que a repetição já era o próprio conto que se formava.

Realismo fantástico Algumas narrativas, como a inquietante Convite para uma vida secreta, lembram mais o realismo fantástico de um Cortázar. A presença difusa de Clarice Lispector é também evidente. "Clarice, para mim, é uma leitura-chave", admite. Mas tem lido também Albert Camus, os contos de Rulfo, Onetti e Borges e, ultimamente, anda apaixonado pelo francês Claude Simon. Dos gaúchos que o antecederam, prefere Cyro Martins, Dyonélio Machado e Simões Lopes Neto.

Semanas antes de receber o segundo Guimarães Rosa. Altair mandou os originais de seu livro para muitas editoras. "Mas só mesmo o Walmor Santos, que o padeiro das letras, que levanta às 4 da manhã para trabalhar, aceitou." Achava que tinha chegado a seu limite e sentia prestes a desistir de escrever. Tinha uma carga de aulas altíssima e só lhe sobravam duas noites por semana para trabalhar um pouco. Aí Walmor Santos o procurou pedindo o livro e semanas depois recebeu de Paris a notícia do novo prêmio, fatos que desmentiram suas previsões. Graças a eles, um grande autor entra em cena. Agora será difícil esquecê-lo.

José Castello