Crítica

Enquanto Água

Líquido e Certo

Com o seu primeiro romance, A parede no escuro, de 2008, o escritor gaúcho Altair Martins arrebatou o Prêmio São Paulo de Literatura do ano seguinte, na categoria de autor estreante, o que rendeu polpudos R$ 200 mil ao seu bolso. Apesar desse indiscutível sucesso na narrativa longa, o nome de Altair é desde sempre associado ao conto. Também pudera: nesse gênero, igualmente colecionou láureas, dentre elas o Prêmio Guimarães Rosa da Rádio France Internationale, o Prêmio Luiz Vilela, o Concurso Nacional de Contos Josué Guimarães e o Açorianos, no Rio Grande do Sul.

Pois na reta final de 2011, e depois da calorosa recepção crítica no entorno de A parede no escuro, o autor retornou às livrarias com um novo volume de contos, Enquanto água, sob o selo da Record, hoje a editora que projeta sua obra em âmbito nacional. Desde as primeiras páginas o leitor constata que ficam mantidos o virtuosismo e o primor de estilo já evidenciados nos livros anteriores, Como se moesse ferro, de 1999; Dentro do olho dentro, de 2001; e Se choverem pássaros, de 2002, todos então lançados pela WS. O que se identifica de novidade, agora, é um certo olhar já mais maduro de narrador, um tom que sutilmente diferencia Enquanto água das primeiras incursões pelo texto curto, reverberando uma leveza que poderia sugerir aproximação com a crônica, não fosse a ironia que inquieta e desaloja.

Natural de Porto Alegre, onde nasceu em 1975, Altair tem trajetória profissional ligada à comunicação e às letras. Foi chargista e ator, é bacharel em Letras pela Ufrgs, mestre e doutorando em Literatura Brasileira na mesma universidade. Nas salas de aula, ao lecionar disciplinas em sua área de formação, protagoniza a interação com as novas gerações, inclusive ao ministrar oficina específica de conto. Porém, é de crer que, para buscar compreender o olhar estético de Altair sobre os princípios ou sobre a complexidade desse gênero, nada melhor do que ler suas próprias criações.

ELO — Em Enquanto água, o elemento líquido sugerido no título, nas mais diversas materializações ou referências, funciona como um elo entre os 18 textos do conjunto. As quatro seções em que se divide o volume guardam identidade própria, uma autonomia de abordagem, inclusive no perfil dos personagens. No entanto, é perceptível que a amarração interna dos diversos enredos promove o diálogo, e que ele nunca é casual. Trata-se de mérito de um grande contista (de Cortázar a Sherwood Anderson), dentre tantos que se aventuram por esse gênero tão emoliente, tão perigoso no descuido, tão pouco tolerante com displicências.

As seções (pela ordem, chuva na cara, depois da chuva, garoa e água com gás) intensificam, texto após texto, esse desconforto do inaudito, do imponderável, do inesperado, que afinal constitui, talvez, a essência da vida. E é de acreditar que no único, solitário conto do segundo capítulo ("O núcleo das estrelas", esse fogo líquido que alimenta o fulgor; ou o paradoxo da estrela que, quando a vimos brilhar em toda a sua intensidade, é porque está no ocaso) esteja guardada alguma chave para elucidar o mistério profundo das águas desse livro. Ao leitor caberá tirar suas conclusões. Altair, como mestre do conto que é, não daria ponto sem nó. Isso, como se diz, é líquido e certo.

Romar Beling