Crítica

Enquanto Água

Altair em Sírius

Entre os 18 contos reunidos em "Enquanto água", novo livro de Altair Martins (Record), um me causa uma perturbação mais intensa: "O núcleo das estrelas". É um conto espantoso. O jogo intelectual oscila entre a erudição e a ironia. Entre a angústia e a coragem. Relata a história de um professor que vive estranhas experiências sensoriais. Talvez sejam efeitos neurológicos. A epígrafe atribuída ao médico italiano Constanzo Varólio (1543-1675) sugere isso. Ela se refere à Ponte de Varólio, estrutura condutora do tronco cerebral. Diz a epígrafe: "Porque é de fato, entre outras, a percepção do contorno uma das mais nobres funções da Ponte de Varólio". O problema do personagem de Altair, um professor de semiótica, é justamente este: os contornos de sua percepção entraram em pane. A realidade, em consequência, se dissolve diante de seus olhos. Pode ser, também, um delírio. Até um pesadelo. Para além de todas as hipóteses médicas, é um evento literário, que o escritor gaúcho manobra com grande habilidade e ousadia.

Altair me empurra para a web, em busca de pistas para ler sua ficção. Toda ficção faz de nós, leitores, aventureiros. Em minha navegação, chego a um artigo do neurologista Afonso Neves que trata da história do sono. Relata o autor: na Grécia Antiga, no Templo de Asclépio, o deus grego da medicina, os pacientes eram levados a dormir, para que, durante o sono, recebessem a visita de seu deus, que lhes ditava a cura. Ao acordarem, os tratamentos ditados em sonhos eram informados aos sacerdotes, que os registravam em um códice.

Por que penso no sono? Penso nele porque o estado do personagem de Altair se assemelha à experiência noturna. Refere-se, ainda, à necessidade de conexões diurnas (laços, afetos), sem os quais os objetos não existem, isto é, caem nas trevas. O próprio narrador cita o filósofo judeu Martim Buber, segundo quem não existe existência sem diálogo, ou vínculos. Em consequência, os objetos não existem se não estiverem conectados a ideias. Um objeto sozinho, distanciado de uma mente que lhe dá contorno, nada é.

Vejam por que pensamentos estranhos a ficção nos leva! O fluido personagem de Altair se interessa, por sua vez, por uma notícia veiculada na internet, que fala de uma estrela que havia morrido milhares de anos-luz antes de sua percepção pelos humanos. As pessoas só dão importância a esses eventos longínquos, ele conclui, quando seus contornos vazam. Neste momento, "a massa corporal derrete, e todos adquirem, num dizer menos intuitivo que técnico, a beleza da chama". Ele pensa, então, em um "sol aguado de Onetti" – referência ao escritor uruguaio Juan Carlos Onetti – estrela que, em sua plenitude, empresta às pessoas "fome e fosforescência".

De que trata, afinal, o enigmático conto de Altair Martins? A ficção lhe dá possibilidade de promover uma explosão dos contornos clássicos que definem não só o gênero, conto, mas a própria realidade. A experiência nervosa leva o personagem a entrar em contato com a "vacuidade de cada indivíduo e uma fuga incessante de cada linha que torna as pessoas muito distintas entre si". O Eu se dissolve. Mas é só quando abrimos as portas de nosso pequeno Eu e entramos em contato com os outros que a realidade se alarga. Eis a experiência básica da literatura: sem um leitor que devore a escrita, escrita não há.

A ideia de vacuidade é muito boa para entender o conto de Altair. Segundo ela, todas as coisas existem por dependência ou interdependência, e não por si mesmas. Fora disso, o vazio. Portanto: a realidade só se configura quando abandonamos nossos casulos pessoais. Um mundo de sujeitos encapsulados seria um deserto. É quando o professor volta da universidade que os contornos começam a falhar. No banho, "está além do chuveiro, porque já se sente em três peças da casa. A ausência de contornos, portanto, anula a noção de espaço, ou (o que dá no mesmo) a multiplica.

É com essas modificações e transformações que a literatura, toda literatura, joga. Mesmo o mais realista dos escritores se move em mundos paralelos, onde nossas regras de estimação se despedaçam e nossos contornos se apagam. Daí a força da ficção: ela consegue expandir o que, sem ela, é pura repetição e monotonia. Ela transfigura um mundo que, na modorra do cotidiano, nos parece imóvel.

Acompanhado da esposa, o professor vai a um casamento. Estranhamente não são só os noivos que se casam, mas todos os presentes, incluindo o padre! Há nessa experiência, como ele mesmo constata, "uma expansão do homem tão oposta ao humanismo". Talvez já nem seja possível, mais, falar em homem, mas apenas em borras humanas. Sujeitos que se misturam, que se dissolvem uns nos outros e que sobrevivem em uma aflitiva, mas bela interdependência.

Há ainda, como define o professor, a experiência do "fluxo perpétuo". Como se ele desembarcasse no coração de uma estrela. Penso em Sírius, a mais brilhante das estrelas observadas em nosso planeta. Nessa bola de plasma contida apenas pela gravidade, Altair avança em direção ao núcleo, de onde – por efeito da fusão nuclear – provém seu brilho. Ali, naquele miolo, a estrela pulsa. É no núcleo, ponto em que todas as formas nascem e ganham seus contornos, que não só a vida, mas a ficção se decide.

Também ao personagem de Altair, postado em seu núcleo, "não lhe assombram as ideias penadas, que teimam aparições". Em outras palavras: já não há lugar para o fantasma modorrento da repetição. Não: no núcleo, só existe nascimento. Ele é o ponto primeiro a que cada escritor retorna quando começa a escrever. Espécie de ponto zero, no qual todas as forças são possíveis, no qual todos os contornos podem ser traçados, e isso porque não existe contorno algum.

O conto de Altair Martins pode ser lido (assim o leio) como uma enigmática metáfora a respeito da origem dos escritores. É naquele lugar fervente em que todas as fronteiras se quebram, ali onde todos os contornos fracassam, que um escritor consegue, de fato, começar a escrever. Daí que a literatura exija dos escritores ousadia. E isso, a ousadia, não falta a Altair Martins.

José Castello