Crítica

A Parede No Escuro

Personagens de uma tragédia

O escritor Lourenço Cazarré comenta o mais recente livro do conterrâneo Altair Martins

Já no seu terceiro livro, aos 34 anos, o gaúcho Altair Martins faturou o mais polpudo dos certames literários brasileiros — Prêmio São Paulo, com dotação de R$ 200 mil. Não devemos esquecer, porém, que o governo, sempre, fica com quase trinta por cento de tudo que alguém conquista neste país. A parede no escuro, de 253 páginas, foi escolhido a melhor entre as narrativas longas lançadas no ano passado por autores iniciantes.

Cauteloso quando se trata da decisão de júris literários, mergulhei reticente na leitura de A parede no escuro, mas saí dela com a certeza de que essa obra de Martins (que esteve em Brasília no início da semana, na abertura do projeto Sonesta Literário) está entre o que de melhor se produziu nas letras pátrias em anos recentes. O livro é forte, denso, opressivo, perturbador, com rápidas incursões pelo erotismo e raras passagens em que se nota um aceno de humor.

A história de cerca de uma dúzia de personagens, muito bem delineados todos eles, gira em torno do atropelamento de um padeiro chamado Adorno. A partir do momento em que o infausto Adorno — no lusco-fusco de um amanhecer chuvoso — é levantado pelos ares por um carro em alta velocidade, espalhando a sua volta uma miríade de pãezinhos (mais conhecidos como cacetinhos entre os gaúchos), são acionados os cordões que movimentam os muitos personagens que têm suas vidas entrelaçadas. Há um narrador onisciente, mas que pouco se apresenta. O que temos no livro basicamente é o encadeamento das poucas falas e dos muitos fluxos de memória dos participantes da tragédia.

Num primeiro momento, conhecemos Onira e Maria do Céu, esposa e filha do falecido. Mais do que humilde, bronca, a mulher do padeiro tem uma dicção rasteira, primária, entrecortada por seguidos apelos aos céus e aos santos.

Para tentar escapar às definições dadas pela “delegação vienense” (que é como Vladimir Nabokov chama os críticos que adoram fazer a dissecação psicológica dos personagens), podemos dizer que a relação entre o padeiro e sua filha é, no mínimo, bastante heterodoxa.

O livro ganha ritmo mais acelerado e intenso depois do seu primeiro terço quando entram em cena os mais fortes caracteres da trama: os professores Coivara e Emanuel e o velho Fojo.

Coivara é o único da história que, aparentemente, consegue enxergar um pouco além do horizonte mesquinho de todos eles — moradores de uma cidadezinha muquirana (Pedras Brancas) nas proximidades de Porto Alegre. Dono de várias falas memoráveis sobre o vale-tudo em que se transformou o ensino brasileiro, ele é o único que arrisca conceitos sobre a vida, o mundo e a cidade.

Emanuel, professor de matemática cujo desempenho sexual certamente levaria o Analista de Bagé a ministrar-lhe meia dúzia de joelhaços, usa de uma linguagem peculiaríssima, engraçada, burocrática (recheada de o mesmo, o qual, o cujo), amparada no gerúndio. É o falar de um sujeito educado lendo apostilas.

A verdade é que, professor de literatura em escolas de segundo grau há mais de uma década, Altair nada de braçada ao construir esses dois mestres e seus diálogos cortantes.

Dando voz a personagens do extremo Sul, obviamente Altair Martins coloca em cena com frequência coloridas expressões de uso regional. Nada que incomode leitores de outros estados. Na verdade, esse é um dos pontos altos do livro: reproduz com economia e justeza o coloquial do litoral sul, um dos cinco principais dialetos do Rio Grande do Sul (sendo os outros: o da zona de fronteira, o da zona de colonização alemã, o da região italiana e “porto-alegrês” — consagrado esse último pelo televisivo Magro do Bonfa).

Primeiro alerta aos mais conservadores: não se preocupem com o primeiro e indecifrável capítulo, aparentemente construído por um narrador em surto psicótico, porque ele dura menos de cinco páginas. Segundo alerta: não esquentem quando o maniático Emanuel tem uns surtos de nouveau-romanismo e passa a descrever os objetos existentes numa sala. São apenas três ou quatro curtas passagens.

Desde sua primeira coletânea de contos, Como se moesse ferro, de 1999, até a obra premiada agora, o jovem ficcionista gaúcho avançou muito. Parodiando Hemingway, que dizia que o grande texto tem sua maior parte submersa, como um iceberg, pode-se afirmar que, agora, no cenário da literatura brasileira Altair Martins alcançou uma visibilidade que o incentiva, mas que, também, aumentará a cobrança dos leitores em relação a seus trabalhos futuros.

Lourenço Cazarré