Crítica

Como Se Fosse Ferro

Faca amolada para criar

Como se moesse ferro, coletânea de contos e livro de estreia do premiado Altair Martins, está nas livrarias

Navalha enferrujada. É a espécie de instrumento que irrompe na imaginação nervosa de Altair Martins.

Enfim, o garoto gaúcho que ganhou por duas vezes o Prêmio Guimarães Rosa, oferecido pela Radio France Internationale, tem seus contos rascantes publicados em livro.

Nas livrarias, Como se moesse ferro, a coletânea que permite aos admiradores da boa literatura provar a prosa amarga do rapaz este que se abriga das vicissitudes mundanas dando aula de literatura em cursinho pré-vestibular. É bom saber que a estirpe de escritores de qualidade não se extinguiu no paralelo 30 entre o Atlântico e o Pacífico, que já produziu nomes como Alcides Maia e Sérgio Faraco. Porém, enquanto os autores de Alma Bárbara e Hotel Majestic ingressam no universo com o carimbo da localidade, Martins persegue o mundo no volátil estado do vácuo ensanguentado.

Porque o sangue das criaturas do jovem contista (23 anos) derrama-se por um espaço que escapa à pertinência dos cartógrafos. Essa gente fabricada a ferro e a carvão, cunhada em aço, por Altair Martins, paira num limbo, extraordinários seres de uma natureza cósmica e, no entanto, térrea. Não fogem ao conhecimento os seus pesares, que são muitos. Assim como são tangíveis seus sonhos, feitos, no mais das vezes, da matéria dos pesadelos. Nada pode ser tão real, nenhuma ficção é de tal forma perceptível. Esse campo polvilhado de estranheza é o pasto comum da literatura.

Estilo se alimenta da energia das metáforas

É trilha nova, mato inexplorado, por onde deve andar os pioneiros. Cipós rompidos com a lâmina oxidada, pronta a talhar seu nicho. Surpreendente, Altair também não consegue esconder as manchas do iniciante. Tênues, essas marcas não denigrem o sabor candente de seus textos com gosto de azinhavre. No corpo todo amalgamado pela primeira vez entre duas capas o que se destaca é um estilo. Acima da forma, destilando ácido no conteúdo, remoendo penas, roendo os calcanhares do senso comum. A língua impressa de Altair Martins se alimenta, com primor, da energia linfática das metáforas.

Essas histórias de crueza cinzenta assentam-se sobre o que é demais conhecido. Arrebentam artérias do amorfo cotidiano, no cruzamento estúpido das relações humanas. Altair inocula, insatisfeito, o incomum no banal. Sem transpassá-lo, sem ultrapassar a velocidade das vidas mansas, sua lentidão intensa. Sem se preocupar com o que há de extraordinário na frivolidade, mas se intrometendo a ponto de causar desconforto na superfície falsamente tranquila dos indivíduos. Num planeta em que não existem cérebros sadios.

Contador nato, por vezes o autor não resiste à tentação de alinhavar uma mensagem. Por isso, em determinados momentos, quando resolve se encaminhar para as veredas dos obradores de parábolas, Altair peca. Sabe-se que o poder das fábulas reside em suas particularidades, na força inusitada de seus argumentos. As fábulas eternas são desenvolvidas sobre torsos narrativos inéditos. Porquanto as invencíveis têm o envelhecimento de séculos, tenazes sobreviventes às suas emulações, às tentativas de imitá-las ou reverberá-las. Esse predicado escapa, por exemplo, ao conto que dá título ao livro (que rendeu o primeiro prêmio da Radio France ao autor, em 1994), pecadilho que não condena o livro, mas não lhe garante o paraíso das obras eternas.

Simetria arranha histórias, mas persistem frases lotadas de sentidos

Vez por outra o narrador é atacado por uma incontrolável ânsia. Pelos dois lados do crânio, as musas imploram pela simetria e contra a sutileza, arruinando, ainda que por leves arranhaduras, histórias como Convite para uma vida secreta e Chefe de família. Mas ainda ali persiste o inegável pendor de maquinar palavras, desenhando quadros de frases lotados de sentidos. Tome-se, por exemplo (uma covardia como exemplo), Marcha fúnebre. Valeria a imortalidade, quem sabe. No mínimo, vale o livro.

Depois de estrear em publicação, Altair se dedica a um projeto mais ambicioso. No momento, está escrevendo uma novela. Ele não sabe ainda onde isso vai dar.

- Estou me enredando, procurando soluções – revela.

A história se passa numa cidadezinha, cujo cotidiano é abalado por rumores. Algo grande está para chegar. Ninguém sabe o que é, mas todos estão convictos, embora sem provas, de que será impactante. Por enquanto Altair já encheu mais de 60 páginas. Considera a possibilidade de aumentar o número de personagens e transformar a narrativa num romance. Diferentemente dos habitantes de sua cidade fictícia, os leitores podem ter certeza de que aí vem coisa boa.

Ricardo Carle