Crítica

A Parede No Escuro

Resenha do dia/ Feira do Livro de Porto Alegre 2008

A prosa de Altair Martins nunca foi direta, fácil. Ele consegue, como poucos, captar o sentido das vozes interiores de seus personagens e transformá-lo em texto literário. Em belíssimo texto literário. Mas nunca tinha usado esse recurso, o Altair, numa narrativa longa. Seus contos, quase todos – mas especialmente do Se Choverem Pássaros (meu preferido) – têm um empuxo impressionante, uma força calculada. No romance o recurso soa mais lento, embora os conflitos tenham a magnitude das almas atormentadas: Adorno, o padeiro rude que será atropelado por Emanuel; Maria do Céu, a abnegada estudante de veterinária e filha do padeiro, cuja relação com o pai é tumultuada; Onira, mãe observadora e onipresente; Emanuel, o professor que dorme com a aluna e cujo pai, Fojo, agoniza num hospital. E por aí vai. Menos importante que a trama em si, complexa e surpreendente, o romance de Altair desafia pela construção da linguagem. A multiplicidade de vozes narrativas por vezes pode até confundir um leitor menos atento, mas confere ao livro uma riqueza estilística como poucas vezes se vê nas nossas letras. E, além do mais, é ousado. É diferente. É original. E isso, claro, é ótimo. Como os personagens vão contando suas minúcias pelas páginas do romance, o resultado é um emaranhado de fios que precisa ser tecido pelo leitor. Não desenredado, que nada há de enredado no livro. A prosa de Altair é clara, sem maneirismos – a não ser a crueza das vozes a que o autor dá vazão. Tecer um romance significa dar sentido a ele. Um sentido que nasce da cumplicidade entre escritor e leitor. Assim como o pão que perpassa todo o livro, A Parede no Escuro precisa ser mastigado. A metáfora de Altair, me parece, não é gratuita. E há também a chuva, imagem muito presente na obra do autor. E os cães, outra simbologia recorrente. E a culpa, o medo, a covardia, o desamparo. Muita matéria humana, num texto de arrepiar

Flávio Ilha