Crítica

A Parede No Escuro

De olho na falência da "firma social

O escritor gaúcho Altair Martins venceu o Prêmio São Paulo de Literatura, ganhou R$ 200 mil, mas faz questão de continuar trabalhando como professor e de viver em Porto Alegre. Há exatamente duas semanas, a vida de Altair Martins não é mais a mesma. Ele diz que pouco mudou, mas na noite de 3 de agosto, quando foi apontado o vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, na categoria estreante – com o romance A Parede no Escuro (Record), alguns passos foram dados. Além do troféu, recebeu um cheque de R$ 200 mil. "Quan¬¬do anunciaram meu nome, meu corpo desabafou." Como o dinheiro, ele deve quitar o financiamento de sua casa. E pretende "comprar" tempo. Sonha em ter, pelo me¬¬nos, um dia livre na semana.

Martins leciona, e muito, para pagar as contas. É professor numa escola, três cursinhos e em uma universidade. Trabalha das 7h30 às 22 horas, às vezes aos sábados. E o domingo não é folga. Ele não descansa. "Vingo-me." E, no caso dele, "vingança" significa escrever ficção. Há uma década.

A marca da polifonia É difícil ler A Parede no Escuro. A primeira impressão pode ser: "Não estou entendendo nada." Ou então: "Perdi o chão." Isso não se trata de "achismo". Há mais de dez narradores.

O centro da trama é a trajetória do personagem Emanuel, um professor que, em meio a um temporal, atropela alguém. A partir disso, as certezas desse personagem se desmancham, e o próprio caminhar do leitor pelo livro torna-se um tatear no escuro.

Mas essa perda de chão não significa imperícia do narrador. Martins é um escritor hábil, e inventou esse enredo para falar, entre outras coisas, da falta de certezas do mundo contemporâneo.

Vários assuntos entram, e saem, de cena, em meio à polifonia. O fracasso da sociedade patriarcal, a falência do sistema educacional brasileiro etc. Além disso, há frases de efeito, que tendem a seduzir o leitor. Alguns exemplos:

"Mas então a gente cala pra se escutar por dentro, e é só isso então?"

"Há coisas em mim que lembram os outros. Isto de escutar paredes, por exemplo, é minha mãe."

Martins começou escrever A Parede no Escuro em 2002. O romance iria se chamar Desamparo. Mas, então, o escritor iniciou curso de mestrado UFRGS e estudou a possibilidade de narradores entrecruzados. O curso terminou em 2006. O livro, seguiu o seu caminho e agora é obra premiada.

Apesar de ter vencido esse prêmio na categoria estreante, já escreveu, e publicou três livros: Como Se Moesse Ferro (1999), Dentro do Olho Dentro (2001) e Se Choverem Pássaros (2003), todos pela pequena editora gaúcha WS Editor. Mas essas obras, apesar de alguma repercussão entre escritores e críticos, não atingiram muitos leitores.

A literatura desse autor de 34 anos não é leitura das mais fáceis. Martins desenvolve um projeto ficcional de ousada experimentação de linguagem. Mas, em meio à polifonia de seu texto, fica evidente que ele tem um tema definido: a falência da sociedade, que Martins chama de "firma social".

A escola, cenário que o escritor conhece com profundidade, é um exemplo que ele apresenta para provar que a "firma social" está falida. Martins não condena o governo. Para ele, os responsáveis pelo fracasso do sistema educacional são os pais – e não os alunos ou os professores. "Os pais são inimigos de todos, inclusive dos filhos. Colocam o filho na escola não para que possa enfrentar as dicotomias do mundo, mas para impor o que trazem de casa tão somente. Recebemos na escola alunos doutores, bonitos, perfeitos, imagem e semelhança dos pais", afirma. Martins não tem a receita para resolver o problema, mas afirma ter convicção de que a palavra "não" precisa ser apresentada aos filhos, pelos pais.

Martins procura fazer dentro de sua casa o que prega para os outros: dialogar, interagir e também dizer não. Casado com a arquiteta Marcia, é pai de Santiago, de 8 anos, leitor, amante das línguas e jogador de futebol – "melhorou no futebol depois das dicas que lhe dei". A filha, Manuela, de 4 anos, vive carregando alguma boneca-bebê e já diz o que pretende vir a ser no futuro: "Médica de bebê".

Com os filhos e a esposa, desfruta, nos raros momentos livres, do que ele mais gosta em Porto Alegre: churrasco apenas com sal, chimarrão, até em filas de banco, e um lugar nas arquibancadas do Beira-Rio, onde veste roupa vermelha e branca e torce pelo Inter.

Ele pretende viver toda a sua existência em Porto Alegre. Discorda de quem diz que morar em "'Portinho' é estar longe demais da capitais." "Porque a tal 'capital' não é mais necessária. Nunca a periferia falou tão alto, em todos os aspectos. Da música à literatura, a aldeia é tema e cabem nela as explicações mais modernas do ser humano."

Entre as "relíquias da terra", citadas por Martins, figuram a cerveja Polar, os vinhos Valduga e Miolo, e – acima de tudo – os cantores-compositores Nei Lisboa e Vítor Ramil, além de Sérgio Napp, "poeta, contista dos melhores e autor de um hino daqueles que são expulsos do campo e vêm beber à beira do Guaíba, a canção 'Desgarrados'".

Márcio Renato dos Santos