Crítica

Enquanto Água

Nas águas de Altair Martins

No volume de contos que autografa hoje na Feira, o escritor consolida sua linguagem inventiva.

Antes do consagrado A parede no escuro, romance com o qual venceu o Prêmio São Paulo de Literatura, em 2009, Altair Martins publicava livros de contos nos quais seu estilo e seu modo todo próprio de inventar a linguagem se sobrepunham à ideia de enredo.

Depois da destilação realizada no romance, Altair volta ao conto com uma série de narrativas na qual a forma encontra a fábula com muito mais harmonia – e assim o autor entrega uma de suas melhores obras.

Enquanto água é o nome do livro, que Altair autografa hoje às 20h 30min na Praça de Autógrafos da Feira do Livro. Antes disso, às 16h, ele participa de um bate-papo com a também escritora Ana Santos na Tenda de Pasárgada, entre o Memorial e o Santander. O volume enfeixa 18 histórias subdivididas em quatro seções tendo a água como mote e anunciando já em seus títulos as diferentes modulações de tons e registros que o autor apresenta para as histórias de cada conjunto: Chuva na cara, narrativas mais carregadas no drama; Depois da chuva, com um único conto sobre um homem que contempla a dissolução da própria realidade; Garoa, com histórias de flertam com a ficção científica, e Água com gás, narrativas sobre relações familiares que aceitam conter certa leveza e dão a mão ao fantástico.

Como em seus trabalhos anteriores no gênero conto, Altair não apenas narra, mas densa seus textos com uma linguagem em que torneios de imagens e sentidos por vezes desconcertam, como em "o rosto já mostrava as taipas" ou "Beatriz, que era bonita até sem querer...". Altair também dedica uma atenção especial àqueles detalhes de que são feitos os melhores contos, como a tensão narrativa, mesclando-a com finais de impacto – cujo efeito é fortalecido pelo cuidado com a trama. Sem abrir mão da linguagem inventiva, Altair constrói-se como um renovado contador de histórias.

Carlos André Moreira